Cléa Sá

Carta a Terêncio

Meu caro Terêncio

Começo a carta com este poema:

“Se soubesses quão pouco me interesso
pelos quatro elementos desta Terra
e pelas cinco faculdades do homem!
Alguns sábios da Grécia, ao que dizem

eram capazes de propor um cento
de enigmas aos que ouviam. É total
a minha indiferença a este respeito.
Vinho! Toca o alaúde e que suas notas,

suas modulações me recordem
a brisa que sussurra na ramagem
das árvores, a leve brisa, leve…
Brisa que passa como nós passamos ”.

É daquele livro Rubaiyat, de Omar Khayyam. Deves conhecê-lo, tenho quase certeza. É um poeta que gosto. Quem nos falou dele pela primeira vez foi um jovem que ficou pouco tempo em nossas vidas. Esse rapaz cometeu um crime de morte, foi preso e mandado para Pedrinhas, a prisão no Maranhão que está agora nos noticiários. Não pude esquecê-lo mesmo depois de tantos anos passados. Gostar de poesia e ser capaz de matar é uma difícil combinação, não achas?

Esta velha história me voltou em razão das notícias que têm saído sobre o Maranhão. Os horrores da prisão de Pedrinhas, as mortes, as decapitações, a barbárie. E também os atentados perpetrados contra a população, os incêndios de ônibus, a morte de uma menina, pessoas quase totalmente queimadas, um horror.

O que tem me impressionado também são os comentários que leio às notícias desses fatos. Quase todos são inclementes: os presos devem mesmo morrer, não merecem piedade e sim, as suas vítimas, o Estado não deve gastar dinheiro com eles e suas famílias, enfim, quase a mesma desumanidade que os presos têm mostrado.

O que dizer disso, Terêncio? Como explicar tanta maldade e tanta desumanidade?

Os tempos têm mudado muito da minha juventude para cá. Coisas boas têm acontecido, mas também coisas ruins. O progresso não é necessariamente bom, é o que me parece. Digo uma heresia? Talvez olhar o passado como olho, com um olhar benévolo, esconda os seus muitos males. Não sei. Pode ser.

Terêncio, acho que nunca te falei da Cadeia Municipal da minha cidade que ficava na nossa rua, lá em Pedreiras. Era comum, ao passarmos, vermos os presos olhando a rua através das grades. Não eram muitos, mas sempre havia um ou dois. Cabia à Prefeitura alimentar aqueles homens, o que por vezes deixava de fazer, e eles, famintos, ficavam pedindo a quem passava um “prato de comida, pelo amor de Deus”. A gente atendia sempre, mas calmamente, sem grandes atropelos. Mas quando aconteceu com um dos meus irmãos mais novos foi um pandemônio. Ele chegou aos prantos pedindo comida para o preso. Sua urgência apressava Teresa, a cozinheira, e lá ia ele quase correndo levar alimento ao nosso vizinho encarcerado. Creio que a fama dele se espalhou entre os presos e em consequência a cena se repetiu muitas vezes. Penso até que os presos esperavam por ele para pedir ajuda. A Prefeitura falhava, mas ele não. Foi daí que veio o seu apelido de Bom. O Bom sabes quem é. Aquele meu irmão que morreu jovem, aos 28 anos, tinha acabado de se formar em Medicina. Ai, que tristeza!

Volto ao assunto das prisões e vejo que não há como comparar as prisões de hoje com aquela humilde Cadeia Municipal. Há excesso de presos que são amontoados em uma única cela, não há higiene, a comida é escassa ou mal feita e ainda há relatos de agressões de policiais aos presos ou de presos contra presos. Sabe-se que quadrilhas operam normalmente e que prisioneiros são obrigados a elas pertencer e a executar as ordens dos chefes, inclusive depois de saídos da prisão. Enfim, os prisioneiros têm seus direitos humanos violados constantemente. Com isso perpetua-se a violência e há mesmo o seu agravamento.
Já não se espera que um preso se regenere. Ele é jogado na prisão como os degredados eram enviados para o Brasil e para outras colônias portuguesas na época dos descobrimentos. Penso que os degredados tinham até mais chance.

Ai, Terêncio, acho que nem vais gostar desta carta, está muito soturna. Mas se escrevo sobre isso é esperando que de ti me venha algum consolo ou algo que me permita entender este momento que vivemos. Tu sempre me fazes bem.

Teu nome se deve ao de Publio Terêncio Afro, o poeta romano? Deve ser, sim. Aquela frase dele “Sou homem: nada do que é humano me é estranho” me leva à reflexão. E penso que se somos todos da mesma espécie humana o que se comete contra qualquer homem é contra todos que é cometido, não é? E também que sendo humanos nada que aconteça a qualquer ser humano deve nos surpreender, pois nunca poderemos ter certeza absoluta de que em determinadas circunstâncias não fôssemos capazes de cometer aqueles mesmos atos. Somos capazes de tudo: de atos heroicos aos mais vis e deploráveis.

Bem, Terêncio, não consigo tratar de coisa mais leve hoje e estou me arriscando a filosofar. É melhor parar antes que comece a escrever bobagens.

Espero que entre teus muitos afazeres aches um tempinho para atender a esta velha amiga e respondas a esta carta

Com meu afeto de sempre

8 Responses para “Carta a Terêncio”

  1. Regina Motta
    Regina
    31/01/2014 at 12:55 #

    Cleá, ainda estou sobre o impacto do seu texto. Muito, muito sério o seu assunto e como foi bem tratado. Não posso dizer mais nada ,a não ser obrigada pela sua humanidade e compaixão. São elas que salvarão o mundo, quero crer.
    Beijos , Regina

    • Cléa Sá
      Clea
      31/01/2014 at 17:26 #

      Obrigada, Regina. Suas palavras me acalentam. Beijos
      Clea

  2. Junior
    21/01/2014 at 07:04 #

    Mãe, seu texto é sempre gostoso de ler. Beijo e com saudades.

    • Cléa Sá
      Clea
      21/01/2014 at 10:54 #

      Oi, Juninho, estou com saudades. beijos
      Cléa

  3. Vicente Sá
    20/01/2014 at 10:22 #

    Texto de soturna beleza, mas de beleza. Que, afinal, é o que mais importa.

    • Cléa Sá
      Clea
      21/01/2014 at 10:53 #

      \\\\\\\que bom que você gostou, Vivente

  4. Andrés Ibarra
    20/01/2014 at 08:06 #

    Parabéns Cleíta. Bela escrita, belos pensamentos, apesar de “soturnos”. Eu diria que são, mais que isso, “bons”. Abraço do Andrés

    • Cléa Sá
      Clea
      20/01/2014 at 09:39 #

      Obrigada, querido Andrés.
      Cléa