Cléa Sá

Carta sobre a felicidade (trechos)

De Epicuro a seu discípulo Meneceu

Nunca se é demasiado jovem ou demasiado velho para dedicar-se ao conhecimento da filosofia. Aquele que sustenta que não é chegado ainda o momento de dedicar-se a esse conhecimento, ou então que é tarde demais, é como se andasse dizendo que ainda não é o momento de ser feliz, ou então que passou da idade. Jovem ou velho, o certo é nos dedicarmos a conhecer a filosofia: para nos sentirmos jovens quando estivermos avançados em anos, em virtude das gratas recordações da felicidade sentida no passado e, quando jovens, para nos robustecermos com ela, preparando-nos para não temer o porvir. Procuremos agora conhecer as coisas que trazem a felicidade, porquanto se a temos, tudo temos, e se é ao contrário, tudo fazemos para alcançá-la. Pratica e medita sobre as coisas que te recomendei: são fundamentais para uma vida feliz.

Primeiro de tudo considera ser eterno e feliz o que é divino, como sugere a noção de divindade que nos é inata. Não lha atribuas nada que seja diverso de sua imortalidade e nem contrário a tudo o que é feliz. Vê-la sempre conjugada à felicidade. Os deuses existem, é evidente a todos, mas eles não são como a gente comum acredita, pois estas são sempre levadas a falsear a noção inata que temos deles. Porque não é ímpio quem refuta a religião popular, mas sim quem atribui aos deuses os falsos juízos que o povo lhes atribui. Tal juízo não se baseia nas noções ancestrais, inatas, mas em opiniões falsas.

(…)

Em segundo lugar, habitua-te a pensar que a morte para nós não é nada, pois o bem e o mal não existem senão como sensações, e a morte é a privação da sensação. Um conhecimento exato desse fato, que a morte nada é para nós, proporciona o gozo da vida finita, evitando a ideia de uma duração eterna e livrando-nos do anseio de imortalidade. Pois não existe nada a temer na vida para quem está convencido de que não há nada a temer em deixar a vida. É tolo, portanto, quem diz ter medo da morte, não porque é temível a sua chegada, mas porque é temível o esperá-la.

(…)

Assim, o mais terrível de todos os males, a morte, não é nada para nós porque, enquanto vivemos a morte não está presente, e quando a morte está presente nós é que não estamos.

(…)

A maioria dos homens às vezes teme a morte e outras vezes a deseja para dar fim aos males da vida. O sábio, ao contrário, nem deseja nem teme a morte, já que a vida não lhe é um fardo, como não crê ser um mal o não existir. Assim como não é a abundância de alimentos e sim a sua qualidade o que nos apraz, tampouco é a duração da vida que nos agrada e sim que seja bem vivida.

(…)

Em terceiro lugar há que compreender que entre os desejos, uns são naturais e outros tantos são vãos, e que, dentre os desejos naturais, uns são necessários para a felicidade, outros para a tranqüilidade do corpo e outros para a vida em si mesma. Uma teoria verdadeira dos desejos relaciona toda a preferência e toda a aversão à saúde do corpo e à serenidade do espírito, já que aí se encontra a perfeição da vida feliz, e todas as nossas ações têm como fim evitar vez o sofrimento e a inquietude.

(…)

Reconhecemos o prazer como o primeiro dos bens e conforme a nossa natureza, é ele que nos faz preferir ou rechaçar as coisas e tendemos a tomar a sensibilidade como critério do bem. E, uma vez que o prazer é o primeiro bem natural, segue-se que não procuramos um prazer qualquer, uma vez que em certos casos desprezamos muitos prazeres que têm por conseqüência uma dor maior. Por outro lado há muitos sofrimentos que consideramos preferíveis aos prazeres, quando nos proporcionam um prazer maior depois de os havermos suportado durante um longo tempo. Por conseqüência, todo prazer, pela sua própria natureza é um bem, mas nem todo prazer é desejável. Igualmente toda dor é um mal, mas não temos de fugir necessariamente de toda dor.

(…)

Existirá alguém mais feliz do que o sábio? O sábio tem posições reverentes sobre os deuses, não teme jamais a morte, compreende qual a finalidade da natureza, sabe que é fácil alcançar e possuir o bem supremo, e que o mal extremo tem duração ou gravidade limitada. E quanto ao destino que alguns encaram como déspotas, o sábio se ri dele. Valeria mais, com efeito, aceitar os relatos mitológicos sobre os deuses do que fazer-se escravo da fatalidade, uma vez que as coisas acontecem por necessidade ou por acaso, ou por nossa vontade, e que a necessidade é incoercível, o acaso instável enquanto a nossa vontade é livre.

Sem comentários ainda.