Cléa Sá

Outra brincadeira

Quem acompanha este blog já me ouviu falar do nosso grupo de leitura. Somos amigos e gostamos de ler. Uma vez por mês nós nos reunimos para discutir um livro escolhido entre alguns indicados por nós. Essa escolha se dá por votação. Tem sido uma atividade prazerosa. Recebemos boas indicações de livros, melhoramos a qualidade da nossa leitura, debatemos temas ligados aos livros lidos e, o melhor, fortalecemos a nossa amizade.
Desse nosso sério passatempo, fiz uma brincadeira. Escrevi um texto usando 29 títulos de livros escolhidos entre os que lemos para que sejam identificados. Vejam quantos vocês acertam. Depois confiram as respostas no final do texto. E aproveitem as indicações de leitura. Todos são livros bons.
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Moro em um lugar pequeno. Uma vila. Compartilho a vida de meus vizinhos, eles têm interesse na minha. Levo uma vida calma de aposentado e me ocupo em parte observando o que se passa ao meu redor, as idas e vindas dos moradores, os pequenos acontecimentos, as cenas da vida na aldeia, como chamam os portugueses. Aldeia é melhor que vila, acho. Tenho alguns amigos. Isso é muito bom, sobretudo ao envelhecermos. Envelhecer é como uma descida, uma viagem vertical, rumo ao pouso certo e final: a morte. Tenho bastante tempo. Faço longas caminhadas, preparo minha comida, cuido da casa e escrevo. É uma ocupação prazerosa. Gosto de viver só. Como todos os velhos, tenho minhas manias. Gosto de mapas. Deles faço coleção e busco comparar, em pequenas viagens, os mapas com os territórios que eles representam. Assim, uma vez por ano saio em uma viagem que me toma coisa de um mês. Já fui a Amsterdã, Paris, Johanesburgo, Porto e muitas outras cidades.

Na minha última viagem resolvi escrever um diário. Queria registrar o maior número das coisas vistas e ouvidas, relatar os acontecimentos vividos e os encontros com pessoas de outras culturas que porventura ocorressem. Na metade da viagem, parei para ler o que vinha escrevendo e fiquei confuso: parecia o diário de um velho louco ou como se aquela viagem fosse a síntese de coisas más, o diário de um ano ruim. Só falava dos meus achaques e das minhas confusões mentais. Desisti. Ficará das viagens apenas o que a mente e o coração guardarem, decidi. E não escrevi mais.

Minha aldeia fica perto do mar. Ah! O mar! Como me encanta. Nos dias claros, vou para a praia e após a minha caminhada sento-me em uma pedra e lá fico a observá-lo. Outras vezes deito-me na areia e me perco olhando as nuvens por muito tempo. E vejo que, quando viajo, o mar me faz falta: seu marulhar constante, o cheiro da maresia. Chego a dizer, em voz alta, fazes-me falta, mar!

Ontem tive um sonho que me surpreendeu. Sonhei que amava loucamente, apaixonadamente, uma jovem chamada Serena. Estranho lembrar o nome de uma pessoa de sonho. Mas não foi um sonho bom. Ela me deixava, embora eu implorasse por sua presença. Acordei quase chorando até me dar conta de que era um sonho. Felizmente não vivo mais esse tipo de história. Amor? Lixo é o que é na minha idade. Sempre a mulher nos deixa, a mulher foge.

Sou muito ligado nos meus sonhos. E explico. Quando jovem sofri uma espécie de colapso. Um surto. Eu fumava muito, um cigarro atrás do outro, a nicotina me impregnava. Bebia também. Excessos! Fiquei longo tempo em tratamento. Fiz terapia com uma analista junguiana. De tanto escrever o que sonhava para descobrir os seus sentidos ocultos, me habituei. É outra das minhas tarefas diárias: escrever o que sonho. Às vezes sei o que querem me dizer, às vezes não os entendo. Um exemplo recente: Sonhei que atravessava uma série de jardins, um com flores gigantescas, outro com insetos enormes, uns jardins assustadores, terríveis, e ao final daquele percurso eu era uma menina, parecida com a Alice, e recebia de um índio uma maçã envenenada. Antes de comê-la, acordei. Ufa! Não, para esse sonho não encontro explicação. Nem Freud encontraria.

Já falei que tenho alguns amigos. Não são muitos, mas são bons. Meu vizinho mais próximo é um estrangeiro de nome Jacob Von Guntem. Com ele tenho uma excelente relação. Outro, com quem travo longas conversas, é o vigário da nossa aldeia, o Padre Sérgio. Na outra rua, mas não muito longe moram os Malaquias. Gente boa! São de Minas.

Tenho mais a contar da minha aldeia. Perto da Igreja mora uma família um pouco estranha. Diferente do que é costume aqui, eles estão sempre de porta e janelas fechadas. São três pessoas, um velho e duas moças, suas filhas, mas nunca saem juntos. Embora façam o maior mistério não é segredo para ninguém: há outra filha, louca, sempre trancada. A criançada, quando passa por lá depois das aulas, grita em conjunto: cadê a louca da casa? Apareça! Lastimo, mas que se pode fazer face à maldade das crianças? Matá-las?

Aqui não acontece muita coisa. Apareceu outro dia um circo caindo aos pedaços. Fui assistir a uma sessão, como foram todos. Os artistas eram muitos fracos e pareciam famintos. Apenas um era bom: Shalimar, o equilibrista, que além de andar em uma corda bem no alto, fazia mágicas. Em certo momento atrapalhou-se. Quase vi um homem em queda. Mas não caiu, felizmente.

Outro acontecimento é uma morte. Mesmo quando esperada, como a de dona Matilde, que estava acamada há algum tempo. Logo foi desenganada. E tinha a casa sempre cheia de visitas. No fim, chegou a pedir: “enquanto agonizo, gente, façam silêncio”! Nem com esse pedido teve paz. A casa continuou cheia. Eu não fui lá. Detesto intromissão.

Para evitar esse tipo de coisa, já estou me preparando. Não vou ficar inerme, indefeso sendo espionado por um sem número de mulheres. Isso, jamais. Seria uma desonra. Ficar como um peixe dourado em um aquário rodeado de curiosos. Não, sairei silenciosamente como um fantasma que sai de cena. Coragem não me faltará. Serei o bom soldado na sua última batalha. Providenciarei para que seja após o anoitecer. Irei para a Jerusalém prometida. Será?
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1. Cenas da vida na aldeia – Amós Oz
2. Viagem vertical – Enrique Vila-Matas
3. O mapa e o território – Michel Houllebecq
4. Amsterdã – Ian McEwan
5. Diário de um velho louco – Junichiro Tanizaki
6. Diário de um ano ruim – J.M. Coetzee
7. O mar – John Banville
8. As nuvens – Juan Jose Saer
9. Fazes-me falta – Ines Pedrosa
10. Serena – Ian MeEwan
11. Amor e lixo – Ivan Klima
12. A mulher foge -David Grossman
13. A consciência de Zeno – Italo Svevo
14. Jardins assustadores – Michel Quint
15. A maçã envenenada – Michel Laub
16. O estrangeiro – Albert Camus
17. Jacob Von Guntem – Robert Walsen
18. Padre Sérgio – Tolstoi
19. Os Malaquias – Andréa del Fuego
20. A louca da casa – Rosa Montero
21. Shalimar, o equilibrista – Salman Rushdie
22. Homem em queda – Dom DeLillo
23. Enquanto agonizo – William Faulkner
24. Desonra – J.M. Coetzee
25. Peixe dourado – J.M. Le Clézio
26. Fantasma sai de cena – Philip Roth
27. O bom soldado – Ford Madox Ford
28. Após o anoitecer – Haruki Murakami
29. Jerusalém – Gonçalo M. Tavares

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