Cléa Sá

Santa Evita

Relato da reunião de 4 de março
Livro: Santa Evita
Autor: Tomás Eloy Martinez

Não sei o que está acontecendo comigo: preguiça pura e simplesmente? Falta de entusiasmo com a Eva Peron? Dificuldade de preencher as lacunas da minha desatenção? Talvez os três. Mas um telefonema do querido Vilmar querendo saber se a reunião aconteceu, me chamou aos brios. E é assim que me sento em frente a este teclado nesta tarde de chuva para fazer o relato da nossa primeira reunião do ano. Que sairá, por bem ou por mal. Bonita ou feia, mas sairá.

Presentes Andrés, Carmen, Ceissa, Cléa, Josenita, Luisinha, Tadeu, Noé, Virgínia e Zita. E todos felizes com nosso reencontro.

Começamos como de praxe tomando nosso vinhozinho do Porto e pondo os assuntos em dia. Muito agradável sabermos as nossas notícias de viva voz, nessa época de muito e-mail.

Adentramos o Santa Evita. Que como Eva Peron em seus tempos não contou com unanimidade: alguns gostaram muito do livro, outros, apenas um pouco, e alguns detestaram. Mas seguimos. O livro de Tomás Eloy Martinez, misto de ficção, realidade, documentário, depoimentos, e a voz do autor se sobrepondo por vezes, foi considerado um bom livro. Mas não houve muita discussão quanto à técnica, vez que Evita assumiu proeminência e não houve como fugir da sua figura mítica e até aterradora. As aventuras e desventuras de seu corpo morto, vilipendiado, as paixões que despertou nos seus ocultadores, os acidentes e mortes ligados a essas travessias, são fatos muito bem documentados que nos deixam estarrecidos.

Toda a conversa girou sobre Evita. Quem foi e o que se tornou. Houve tentativas de se examinar o peronismo, ou em trazer a discussão para o Brasil a ver se aqui existiam figuras correspondestes, mas nada prosperou. Eva Peron era a dona da noite e dela não abriu mão.

Evita tornou-se um mito, construído com histórias reais e inventadas. Para seus adeptos, os descamisados, las cabecitas negras era a santa, a grande Mãe, Cristo depois de ressuscitado, a própria Argentina; para seus detratores, a Besta, a mulher ignorante, que usava o sexo para dominar os homens, e outros tantos epítetos piores.

Transcrevo agora o que Josenita escreveu sobre o livro a meu pedido, já que não consegui reaver a sua fala:

“Logo no início do livro, não sei precisar quando, uma ideia foi se insinuando e acho que foi a que perdurou: não só sua vida mas seu corpo essencialmente,  seu corpo embalsamado, como algo da ordem de um recalque, como diz a psicanálise. Algo que expõe aquilo de que não se quer saber_ do estranho que nos habita e nos surpreende, nem sempre nos engrandecendo; da nossa finitude, da morte que sabemos certa  mas sobre a qual mão queremos pensar; de nossa precariedade e desamparo. Ela expôs com sua vida, a princípio tão insignificante, apagada, destituída de garra e, de repente tomada por uma força até então desconhecida (talvez por ela mesma) desmascarando a mentira política, a hipocrisia das classes superiores, e o descaso do Estado para com seu povo. Ela não desempenhou um papel, foi tomada por ele, pela indignação e, o seu corpo embalsamado, sequestrado, violado é testemunho desse recalque: não queremos saber daquilo que abale nossas convicções, nossa imagem de bondade, justiça e de que até podemos guardar uma certa proximidade com a maldade, a violência e o desrespeito em alguns ou muitos momentos. No mínimo que somos menos democráticos do que acreditamos ou aparentamos ser”. Falou.

Depois passamos para nossa mesa de café, que estava linda e cheia de coisas boas e gostosas: bolos, tortas, biscoitos, pamonha, sucos, chá, café. Enquanto saboreávamos sem culpa as gostosuras, relatamos as nossas leituras:

Andrés – Está lendo poesia. Antologia poética de Ferreira Gullar, Antologia de Carlos Drummond de Andrade, A arte de viajar, Alain de Botton;

Carmen – Mateo perdeu o emprego, Gonçalo M. Tavares, Minha vida de menina, Helena Morley, O irmão alemão, Chico Buarque, Cartas… (?);

Ceissa – O irmão alemão, Chico Buarque, Viva o povo brasileiro, João Ubaldo, Blessed Unrest, Paul Hawken;

Cléa – O brilho do bronze, Boris Fausto, Um lugar perigoso, Luiz Alfredo Garcia-Roza, A viagem ao Brasil de Marianne North, Julio Bandeira, Um lance mortal, William Faulkner, Uma rua de Roma, Patrick Modiano, A cidade e a cidade, de China Mieville;

Josenita – Santa Evita, Tomás Eloy Martinez, Todo vícios, Maitê Proença;

Noé – Teria Geral do Esquecimento, José Eduardo Agualusa, Matteo perdeu o emprego, Gonçalo M. Tavares, O fascínio do dever para os cristãos, Karl Kepler, Imagens, Ingmar Bergman, Confissões, Ingmar Bergman, Poema com P de puta, David Dioli, Sharon e a minha sogra, Suad Amiry , Santa Evita, A cor do leite, Nell Leyshon, O irmão alemão, Chico Buarque, Judas, Amós Oz, Minha primeira vez, Luiz Ruffato, A balada de Adam Henry, Ian MC Ewan, O livro da gramática interior, David Grossman;
Tadeu –O jantar, Herman Koch, A balada de Adam Henry, Ian McEwan, Judas, Amós Oz, O conde negro, Tom Reiss;

Virgínia _ A balada de Adam Henry, Ian McEwan, Galveias, José Luís Peixoto, Rebuliço no pomar das goiabeiras, Kiran Desai, O torreão, Jennifer Egan, Judas, Amós Oz, O origibal de Laura, Vladimir Nabokov, A língua absolvida, Elias Canetti;

Zita – Você vai voltar pra mim e outros contos, Bernado Kucinski, Americanah, Chimamanda Ngozi Adichie. O título é esse mesmo, Zita? Me corrija se eu tiver anotao errado.

Luisa saiu mais cedo e não deixou a lista. Que tal mandar, Luisinha?

Passamos em seguida a escolher o livro para ser discutido na próxima reunião. Poucas opções foram dadas. Falou-se em Os velhos também querem viver, de Gonçalo M Tavares, mas constatamos que ainda não chegou às livrarias. Surgiu então o nome de Nélida Pinon e seu livro Vozes do deserto, que foi aceito por todos.

Que tal na próxima reunião trazermos mais sugestões de leitura? E a reunião será no dia 25 de março, última quarta-feira do mês. Desejamos melhoras para nossos doentinhos Bete e Roberto.
Abraços a todos

2 Responses para “Santa Evita”

  1. Marisa Perrone
    10/04/2015 at 19:43 #

    olá, Cleíta. O clube está bombando. Ainda não me organizei para voltar, mas já me aposentei. Vou ver se me organizo para a próxima reunião. Seu relato, como sempre, deixa a gente de água na boca. bjs.

  2. zita
    12/03/2015 at 08:53 #

    Verdade, Cleita, assim como no livro, Evita esteve presente em nossa reunião. Aprendi muito com vocês. Já comecei a ler as vozes do deserto. Ansiosa pelo próximo encontro. Seu relato, em parceria com Josenita, retratou muito bem noite tão rica e agradável. Zita

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