Cléa Sá

Yeuda Amichai

A vida junto da morte

 

A vida junto da morte

Na carcaça de um carro à beira da estrada

Você ouve as gotas de chuva na lata enferrujada

Antes de senti-las cair na pele do rosto.

Cai a chuva, salvação depois da morte.

Ferrugem mais eterna do que sangue,

Mais bonita do que cor de labaredas.

O vento que é tempo, alterna

Com o vento que é lugar.

E Deus

Permanece na terra como um homem que sabe

Que esqueceu alguma coisa

E fica

Até lembrar.

E à noite você pode ouvir

Como maravilhosa melodia,

O homem e a máquina,

No seu lento caminho, do fogo rubro

Para a paz negra

E daí para a história

E daí para a arqueologia,

E daí para um belo estrato de geologia.

______________________________________________________________________________________

Tradução e nota de Millor Fernandes

 
Yehuda Amichai (Alemanha 1924 – Israel 2000)

Yehuda Amichai (o c é mudo e acho que ambos os hs são aspirados), um dos maiores poetas de nosso tempo, morreu, aos 76 anos de idade, gloriosa, emocional e sentimentalmente bem vividos.

Aqui e ali, nos últimos dez anos, publiquei meia dúzia de poemas de Yehuda. Ele nasceu na Alemanha, em 1924, lutou no exército inglês (1942-46), e serviu na brigada de Palmach, no Negev (1948-49), durante a guerra de formação do país. Apesar de seu visível amor por Israel, o poeta tinha visão cosmopolita; dramática e irônica, moderna – e ligada aos infinitos tempos do passado.

Fala do vasto espectro humano: erotismo, perda, encontro e desencontro, guerra e morte, tudo envolvido na inalterável precariedade da vida em Israel. Embora tenha lutado em duas guerras não aceitava as simplificações do nacionalismo. Embora tivesse profundo conhecimento das Escrituras não conseguia acreditar nas certezas de uma fé excludente.

Estes poemas, feitos poucos dias antes da morte do poeta, são publicados aqui por serem um apelo angustiadamente humano por uma paz que Yehuda buscava e que parece, agora, mais longe do que nunca.

 

 

Sem comentários ainda.