Cléa Sá

Viver

Abro o dia devagarzinho

como quem descasca uma vagem

e conta os caroços de feijão, um a um.

Os minutos importam, as horas muito mais.

Gosto de saborear cada minuto,

perceber o gosto, ver a forma que toma,

o som que traz.

Um minuto é prenhe de coisas,

algumas surpreendentes.

Por isso me entristeço quando a gripe me derruba

e tenho de ficar na cama vendo o dia se escoando

lentamente, por entre meus dedos, como água.

Mesmo assim, pela vidraça da janela,

fico olhando as duas árvores, mãe e filha,

e o abacateiro carregado de frutos.

À noite, me atrevo, apesar do frio, a abrir a janela

e olhar por muito tempo o céu claro,

as muitas estrelas e as nuvens que se movem

e me contam histórias, como na infância.

Não agradeço a Deus. Ele sabe.

 

Julho/ 2005

 

 

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