Cléa Sá

Um rio

 

Sim, vimos peixes cromáticos ziguezagueando

em tanques oblongos, aquários ornamentais a

enfeitar meu sem jeito sem fim entre cafezinho,

suco de laranja e confidências de outras eras

 

Sim, depois descemos subimos ladeiras e escarpas

sob pingos que saltavam os arabescos da murada,

ficavam em suspensão e pousavam na clareira e nos

refrescavam e molhavam as estátuas de outros tempos

 

Sim, aí paramos na frente do jequitibá-rosa e veio

um abraço sem jeito sem fim e eu me equilibrando

na respiração em descompasso e sem saber ao certo se

era lágrima ou gota ribeirinha, seu ombro meu amparo

 

Sim, meu coração virou corredeira, limbo removido

por capricho de menino, véu moldado nas boas intenções

‘olha o que você está sentindo’, o coração em descompasso,

frágeis, trêmulos, como náufragos salvos por nós mesmos

 

Álvaro Luís Kassab

 

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