Cléa Sá

Poema obsceno

Ferreira Gullar

 

Façam a festa

cantem dancem

que eu faço o poema duro

 

o poema-murro

sujo

como a miséria brasileira

 

Não se detenham:

façam a festa

Bethânia Martinho

Clementina

Estação Primeira de Mangueira Salgueiro

Gente de Vila Isabel e Madureira

todos

façam

a festa

enquanto eu soco este pilão

este surdo

poema

que não toca no rádio

que o povo não cantará

(mas que nasce dele)

 

Não se prestará a análises estruturalistas

Não entrará nas antologias oficiais

 

Obsceno

como o salário do trabalhador aposentado

o poema

terá o destino dos que habitam o lado escuro do país

e espreitam

 

1980

 

 

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