Cléa Sá

Para Raja Rao

Czeslaw Milosz

 

Raja, seria bom se eu soubesse

a causa dessa enfermidade.

 

Por anos não pude aceitar

o lugar em que estava.

Sentia que devia estar alhures.

 

À cidade, às àrvores, às vozes humanas

faltava a qualidade da presença.

Eu vivia da esperança de mudar-me.

 

Havia alhures uma cidade de real presença,

de árvores reais e vozes e amizade e amor.

 

Associe, se quiser, meu caso peculiar

(no limite da esquizofrenia)

à esperança messiânica

da minha civilização.

 

Pouco à vontade na tirania, pouco à vontade na república,

numa eu ansiava por liberdade, noutra pelo fim da corrupção.

 

Construindo em minha mente uma “polis” permanente

despojada para sempre de alvoroço despropositado.

 

Aprendi finalmente a dizer: este é o meu lar,

aqui, diante do carvão em brasa de ocasos no oceano,

no litoral que se defronta  com o litoral da sua Ásia,

numa grande república, moderadamente corrupta.

 

Raja, isso não me curou

da minha culpa e vergonha.

Uma vergonha em fracassar em ser

o que eu deveria ter sido.

 

A imagem de mim mesmo

cresce, gigantesca, na parede

e contra ela

a minha sombra miserável.

 

Assim é que comecei a acreditar

no Pecado Original

que não é nada mais que a primeira

vitória do ego.

 

Atormentado por meu ego, iludido por ele

eu lhe dou , como você vê, um argumento pronto.

 

Ouço você dizer que a liberação é possível

e que a sabedoria socrática

é idêntica à do seu guru.

 

Não, Raja, eu devo começar do que sou.

Sou aqueles monstros que visitam meus sonhos

e revelam-me minha essência oculta.

 

Se estou doente, não há qualquer prova

de que o homem seja uma criatura saudável.

 

A Grécia tinha que perder, sua consciência pura

tinha que tornar nossa agonia apenas mais aguda.

 

Precisávamos de Deus amando-nos em nossa fraqueza

e não na glória da beatitude.

 

Não há remédio, Raja, meu quinhão é agonia,

peleja, abjeção, amor e ódio a mim mesmo,

preces pelo Reino do Céu

e a leitura de Pascal.

 

Tradução de Nelson Ascher

Depois de uma longa conversa do poeta polonês Czesław Miłosz — um dos poetas mais “queridos” para mim — com o filósofo e escritor hindu Raja Rao, Czesław envia uma carta ao hindu com um poema no final. Escrito originalmente em inglês, ele depois o reescreveu em polonês.

 

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