Cléa Sá

O tempo

Costumávamos observar os pássaros;
agora observamos o tempo.
Nuvens brancas, felpudas como travesseiros,
outras cinzentas como polegares gigantes,
outras escuras, gordas de destruição.

Outrora não nos importávamos.
Tínhamos guarda-chuvas, e quartos.
Mas enquanto olhávamos em outra direção,
para guerras ou distrações variadas,
o tempo se esgueirou por trás de nós
como uma cobra ou um bandido ou uma pantera,
e então se libertou.

Por que fomos tão descuidados,
perguntamo-nos , enquanto o tempo se encapela
sobre o horizonte, verde
e amarelo, cada vez mais espesso
com areia e partes de corpos e fragmentos de
cadeiras e gritos.
Em sua esteira murchamos ou nos afogamos.

Como podemos enfiá-lo de volta
no saco ou na garrafa
onde costumava ser tão pequeno?
Quem o deixou sair?

Se o tempo estiver escutando
não é a nós.
É culpa nossa?
Causamos esta destruição ao respirar?
Tudo o que queríamos era uma vida feliz,
e que as coisas continuassem como eram.

O vento diminui. Há uma quietude,
meia hora de silêncio no céu.
Então, aí vem o tempo
-de novo, de novo-
um único som estridente,
pisoteando tudo,
chamuscando o ar.

É cego e surdo e assombroso
e não tem mente própria.
Ou tem? E se tiver?
Imagine que fosse rezar para ele,
o que você diria?

Margareth Atwood

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