Cléa Sá

O limpador de chaminés

William Blake

 

Quando mamãe morreu eu era bem moleque,

E ao vender-me meu pai, minha língua a custo é que

gritava ‘arre ‘arre ‘arre ‘arre-dor:

Durmo em fuligem, das chaminés sou varredor.

 

O pequeno Tom Dacre chorou ao ser raspado

Seu cabelo, tal qual um cordeiro, anelado.

Eu disse. Calma, Tom, deixa, sem os cabelos

Ao menos a fuligem não poderá tê-los.

 

Se acalmou, & naquela mesma  noite então,

Quando ele adormeceu, surgiu-lhe uma visão,

Dick, Joe, Ned, Jack, e milhares de varredores,

Em negros ataúdes trancados, sem dores,

 

Com chave luminosa um anjo apareceu

E abriu-os, livrando cada menino do seu.

Riam e saltitavam, desciam o vale,

Para lavar-se num rio e ao sol brilharem.

 

Então, nus, brancos, todas as bolsas deixadas,

Subiram para as nuvens, brincaram nas vagas

Do vento. E o Anjo disse ao Tom: Se fores bom

Menino, terás Deus por pai, & alegria por dom.

 

Tom acordou e no escuro nos levantamos

Pegou bolsa e escovas do nosso ramo.

Tom se foi na manhã fria, alegre e aquecido,

Não há nada a temer, se o dever é cumprido.

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William Blake (1757-1827) nasceu na Inglaterra. Poeta, desenhista, pintor, gravador, impressor, viveu no período inicial da revolução industrial inglesa (1760-1830) e em suas obras mostra a mudança de uma economia agrária, artesanal para uma economia industrial. Tido por muitos como louco, dada suas experiências místicas, é considerado por muitos um escrito genial.

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