Cléa Sá

O DOM

O DOM

Ela sonhava sempre três realidades.
Era assim: numa, o marido caía e quebrava o braço.
Na outra caía e não quebrava o braço.
E na terceira não caía, mas dançava.
Ao acordar ela escrevia duas das versões e estas não aconteciam.
O não escrito virava realidade.

Um dia sonhou que um gato
na janela da cozinha comia, de uma só bocada,
um passarinho amarelo que ali pousara.
Na segunda vez comia o passarinho depois de matá-lo lentamente.
E no terceiro sonho, o gato comia-o depois de prendê-lo pela cauda.
De manhã escreveu as três histórias tentando salvar o passarinho.
No final da manhã, quando o pássaro pousou na janela,
ela expiou com o rabo do olho e o coração aos saltos.
O gato, depois de disfarçar um pouco, tentou pegar o pássaro.
Este foi mais rápido e voou em torno de sua cabeça furando-lhe os dois olhos.
À noite, com o gato cego no colo, pensou que talvez seus sonhos não fossem uma benção como julgara.

E na madrugada sonhou três vezes que perdia o dom.

Vicente Sá

Uma opinião para “O DOM”

  1. vinicius
    06/04/2014 at 13:44 #

    o vicente,
    levei um livro seu e as cartas do mico/homem ontem pra meus alunos da USP.
    ele ADORARAM!