Cléa Sá

Lâmpada Marinha

As noites ficarão imensas.
A tristeza das coisas será cada vez mais profunda.
Agora passeias nos jardins intemporais.
E aqui, as noites serão imensas
e a solidão do mundo terá uma estatura infinita.
Vejo-te desaparecendo, como arrastada por linhas divergentes
Desfazendo-se misteriosamente como uma sombra, na tarde.
Bruxuleias muito longe, lâmpada marinha,
sob a última ventania que te varreu da terra.
As noites ficarão imensas, oh, ficarão imensas!
Imóvel, jazes entretanto, recostada e serena
e tudo ainda está em ti: a mesma boca amarga,
os mesmos olhos imprecisos, os mesmos cabelos
de teus inúmeros retratos.
E através desta inimaginável quietude serena
desdobra-se a tua meninice e ainda guardas as mãos translúcidas
da primeira comunhão, os lábios túmidos de noiva quase impúbere
e a seqüência fotográfica de quando ampliaste os teus seios
e teu ventre e tua alma para conter um filho.
Ah! As noites serão imensas,
e a tristeza das coisas encherá o mundo!
Agora frequentas os tempos infinitos e ilimitados de Deus,
mas ainda repousas teu corpo na última noite que te arrastou da vida.
São os mesmos seios, a mesma fronte, a mesma boca desmaiada ,
a mesma seqüência de retratos que se interrompem enfim.
Não há um só pedaço de carne nem um membro sequer que te pertença mais:
Deus te raptou em tua totalidade.
E enquanto tudo em ti parou para nós,
tu és a dançarina que Ele arrebatou dos homens e absorveu m Si.
E as noites ficarão imensas e mais tristes…

Jorge de Lima

Sobre o Autor:
Poeta alagoano (1893/1953) de alto renome na poesia nacional.
Da Antologia Poética, Editora Sabiá.

2 Responses para “Lâmpada Marinha”

  1. Cléa Sá
    clea
    17/11/2013 at 21:56 #

    Também acho. É um dos meus poemas favoritos. beijos
    Cléa

  2. maria eugenia
    15/11/2013 at 22:59 #

    lindo demais!!