Cléa Sá

História antiga

Francisco Alvim

 

Na época das vacas magras

redemocratizado o país

governava a Paraíba

alugava do meu bolso

em Itaipu uma casa

do Estado só um soldado

que lá ficava sentinela

um dia meio gripado

que passara todo em casa

fui dar uma volta na praia

e vi um pescador

com sua rede e jangada

mar adentro saindo

perguntei se podia ir junto

não me reconheceu partimos

se arrependimento matasse

nunca sofri tanto

jogado naquela velhíssima

jangada

no meio do mar

brabíssimo

voltamos agradeci

meses depois num despacho

anunciaram um pescador

já adivinhando de quem

e do que se tratava

dei (do meu bolso) três contos

é para uma nova jangada

que nunca vi outra

tão velha

voltou o portador

com a seguinte notícia

o homem não quer jangada

quer um emprego público

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Francisco Alvim (1938),  poeta e diplomata brasileiro, é considerado da primeira geração de poetas pós-vanguardas, ou da poesia marginal. Em 1981, a Editora Brasiliense reuniu seus livros em Passatempo e outros poemas, com o qual ganhou o prêmio Jabuti daquele ano. Em 1988, com Poesia reunida, recebeu outro prêmio Jabuti.

 

As poesias postadas são do livro   Elefante. Cia. Das Letras, 2000

 

 

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