Cléa Sá

Dois poemas de Murilo Mendes

Pré-história

Mamãe vestida de rendas
Tocava piano no caos. Uma noite abriu as asas
Cansada de tanto som,
Equilibrou-se no azul,
De tonta não mais olhou
Para mim, para ninguém! Cai no álbum de retratos.

SOLIDARIEDADE

Sou ligado pela herança do espírito e do sangue
Ao mártir, ao assassino, ao anarquista.
Sou ligado
Aos casais na terra e no ar,
Ao vendeiro da esquina,
Ao padre, ao mendigo, à mulher da vida,
Ao mecânico, ao poeta, ao soldado,
Ao santo e ao demônio,
Construídos à minha imagem e semelhança.

 

Murilo Monteiro Mendes (Juiz de Fora13 de maio de 1901 — Lisboa13 de agosto de 1975) foi poeta e prosador, expoente do surrealismo brasileiro.

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