Cléa Sá

Dois poemas

Manoel de Barros

 

Sobre meu corpo se deitou a noite (como se

eu fosse um lugar de paina).

Mas eu não sou um lugar de paina.

Quando muito um lugar de espinhos.

Talvez um terreno baldio com insetos dentro.

Na verdade eu nem tenho ainda o sossego de

uma pedra.

Não tenho os predicados de uma lata.

Nem sou uma pessoa sem ninguém dentro _

feito um osso de gado

ou um pé de sapato jogado no beco.

Não consegui ainda a solidão de um caixote_

tipo aquele engradado de madeira que o poeta

Francis Ponge fez dele um objeto de poesia.

Não sou sequer uma tapera, Senhor.

Não sou um traste que se preze.

Eu não sou digno de receber no meu corpo

os orvalhos da manhã.

 

2

 

Deus disse: Vou ajeitar a você um dom:

Vou pertencer você para uma árvore.

E pertenceu-me.

Escuto o perfume dos rios.

Sei que a voz das águas tem um sotaque azul.

Sei botar cílio nos silêncios.

Para encontrar o azul eu uso pássaros.

Só não desejo cair em sensatez.

Não quero a boa razão das coisas.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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