Cléa Sá

Dois poemas

György Petri

Que pena

 

Que pena morrer justo quando

as coisas vinham melhorando,

mas não faz mal, reunindo em breve

chuva estival, restos de neve,

ramas com cheiro de aguardente

no outono, irei, sem que o lamente,

mesclar-me às folhas, água e argila:

a encosta aguarda-me tranqüila;

quanto ainda falta e estarei junto

de Lilla e Maya é o que pergunto.

(Eu desceria à cova pronta- ,

mente, mas quem vai tomar conta

de Mari ou dar-lhe flor, assim

que os vermes nutram-se de mim?)

 

 

Esqueça

 

 

Não diga que é o fim.

(Fim, afinal, do quê,

se é que tem fim de fato?

Não diga coisa alguma

– algo melhor que não

dizer coisa com coisa.

Esqueça que viveu

e tudo o que já quis.

Não é mais relevante.

Desacostume-se de ser:

não  viver é melhor.

 

György Petri

Tradução de Nelson Ascher

 

Sobre o autor:

György Petri poeta húngaro nasceu em 1943 e morreu em 2000.

 

Fonte: Folha de São Paulo

 

 

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