Cléa Sá

Do folclore pernambucano

Alecrim da beira d’água

Não se corta com machado

Se corta com canivete

Do bolso do namorado

 

Alecrim da beira d’água

Dá um vento e vai pendendo

Meus amigos e camaradas

Por detrás tão me vendendo

 

Alecrim verde se chama

Uma esperança perdida

Quem não logra o que deseja

Mais vale perder a vida

 

A garça vai avoando

Seus encontros vão rangindo

Passa a moça pelo moço

Pisca um olho e vai sorrindo

 

A garça vai avoando

Com as penas que Deus lhe deu

Contando pena por pena

Mais pena padeço eu

 

 

A garça vai avoando

Baixa aqui baixa acolá

Em procura  de amor firme

Que nessa terra não há

 

No tempo em que eu te amava

Rompia moita de espinho

Mas hoje eu pago é dinheiro

Para não ver teu focinho

 

A garça pôs o pé n’água

E o bico para beber

Bebeu água dos meus olhos

Pra depois se arrepender

 

O anel bateu na pedra

Retiniu mais de uma hora

Se o seu amor não for firme

O meu passa e vai embora

 

Atravessei rio a nado

No fundo de uma tigela

Somente para abraçar

O corpo de uma donzela

 

Atravessei rio de nado

E outra vez de mergulho

Somente para te ver

Boca de cravo maduro

 

Garça parda e leviana

pescoço de Imperador

alivia os meus males

pois foste tu causador

 

Garça parda e leviana

Pescoço de vai e vem

Alivia os meus males

Pois fizeste eu querer bem

 

Já fui alegre e contente

E hoje não sou ninguém

Já fui consolo dos tristes

Hoje sou triste também

 

Meu benzinho quando se for

Me escreva pelo caminho

Se não achares papel

Nas asas de um passarinho

 

Da boca faça um tinteiro

Da língua pena parada

Dos dentes letra miúda

Dos olhos carta fechada

 

A garça pôs o pé n’água

E o bico para beber

Bebeu água de minh’alma

Não me deixa padecer

 

 

 

Lá vem a garça avoando

Com uma laranja no bico

Eu não sei se é pecado

Namorar rapaz bonito

 

Alecrim da beira d’água

Hortelã da ribanceira

Menina casa comigo

Me tira desta cegueira

 

Estrelimha miudinha

Corre sempre numa linha

Mais depressa corre um beijo

Da tua boca para a minha

 

Eu plantei e semeei

Verdura de todo ano

Já me arde o céu da boca

De tamanho desengano

 

A garça pôs o pé n’água

Pra passar quarenta dias

Eu fora do meu benzinho

Não posso passar um dia

 

Bacamarte bala e bomba,

Raio corisco e trovão

Caia em cima de quem paga

Firmeza com ingratidão

 

 

 

(Folclore pernambucano)

 

 

 

 

 

 

 

 

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