Cléa Sá

Diálogos no jardim

Debaixo de tanto calor,
O pássaro arranjou um ramo verde e fresco
e pôs-se a falar.
O pássaro perguntava-me
“Lembras-te das grandes árvores
com lágrimas douradas de resina?”
Respondi-lhe que sim, que me lembrava que naquele tempo ouvíramos falar em âmbar
e queríamos fazer colares de resina,
mas em nossas mãos ela perdia a transparência.
“Lembras-te dos cajus maduros
caindo fofamente na folhagem do chão?”
Respondi-lhe que sim, que ainda os via
muito longe, amarelos e túrgidos,
as vezes rebentados, na queda,
escorrendo, perfumosos, sumo doce.
“Lembras-te das rodelinhas douradas
que a folhagem e o sol balançavam por cima dos livros?”
Respondi-lhe que sim, e que eram livros de histórias
e foram depois romances, e um dia poemas
e mais tarde pensamentos difíceis…
E o passarinho perguntava:
“Lembra-te da tua voz devolvida pelo eco?”
E eu me lembrava mas não das palavras,
só que as respostas eram sempre incompletas.
“E o recorte da montanha no horizonte,
lembras-te como era azul e negro? E as palmeiras?
E as sebes de flores encarnadas?”
E eu me lembrava de tudo, e sentia o aroma da tarde
e o canto das cigarras, e o lamento dos sabiás
e das rolas e via brilhar a bola azul do telhado, que eu amei tanto,
e sentia tão doce, a minha perpétua solidão.
E perguntei ao passarinho: ” Onde estavas para me perguntar tudo isso?
Também já viveste tanto?”
E ele me respondeu: “Não, tudo isso está no fundo de teus olhos.
Eu só vou perguntando o que estou lendo…
E porque leio, canto”.

 

Cecília Meirelles

 

 

 

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