Cléa Sá

Blusa Fátua

Vladímir Maiakóvski

Tradução de Augusto de Campos

 

Costurarei calças pretas

com o veludo da minha garganta

e uma blusa amarela com três metros de poente.

Fala Niévski do mundo, como criança grande,

andarei, donjuan, com ar de dândi.

 

Que a terra gema em sua mole indolência:

“Não viole o verde das minhas primaveras!”

Mostrando os dentes, rirei ao sol com insolência:

“No asfalto liso hei de rolar as rimas veras!”

 

Não sei se é porque o céu é azul celeste

e a terra, amante, me estende as mãos ardentes

que eu faço versos alegres como marionetes

e afiados e precisos como palitar dentes!

 

Fêmeas, gamadas em minha carne, e esta

garota que me olha com amor de gêmea,

cubram-me de sorrisos, que eu, poeta,

com flores os bordarei na blusa cor de gema!

(1914)

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Maiakóvski (1893-1930), um dos mais importantes poetas russos, aderiu ao regime comunista logo no seu início e participou ativamente durante a guerra civil fazendo propaganda, cartazes, campanhas sanitárias, etc. Fundou em1923 arevista Lièvi Front, Frente de Esquerda, que reuniu poetas e escritores, a “esquerda das artes,” e que pretendia aliar a forma revolucionária a um conteúdo de renovação social. Suicidou-se em 1930. Segundo os tradutores, grandes conhecedores da literatura russa, ainda hoje ele exerce influência profunda na poesia russa moderna. (Infelizmente  pouco conhecemos os poetas russos de agora).

 

 

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