Cléa Sá

Pequenas notas sobre a Copa do Mundo no Brasil

Estreio aqui nova coluna, Observatório. Gostei tanto de comentar os acontecimentos da Copa, que resolvi continuar observando e comentando as coisas deste nosso Brasil.
A coluna foi composta pelos pequenos comentários que postei no facebook

13/6
Feliz com a vitória do Brasil, sobretudo com as atuações de Oscar e Neymar, mas com muita vergonha ao ouvir os xingamento a Dilma, presidente da República. Leio hoje que partiu dos locais onde estavam as pessoas mais ricas. Total falta de educação.

15/06
Do meu observatório da Copa: Campbell, de apenas 21 anos, foi a grande surpresa do jogo de ontem, Costa Rica X Uruguai. Deu gosto ver. Belo jogo o da Itália com a Inglaterra. Esta Copa está boa demais. Erro todos os meus palpites no nosso bolão, mas estou animadíssima.

15/06
Do meu Observatório da Copa: esperava mais da Argentina. E torci pelo gol da Bósnia.

16/06
Ai, ai, ai! Ai, Portugal! nenhum golzinho. Mas a Alemanha jogou bonito. Valeu o espetáculo. Não sei vocês, mas eu tenho as minhas preferências para torcer: primeiro, Brasil, segundo, times sul-americanos, terceiro, Portugal. Mas minha torcida maior é por um belo jogo. E isso tem acontecido. Continuaremos no nosso Observatório.

19/06
E a América do Sul continua brilhando. Os povos irmãos estão em casa, suas torcidas enchem os estádios, cantam, dançam, se fantasiam. É uma festa. Hoje maior ainda com as vitórias de Colômbia e Uruguai.
Uruguai X Inglaterra ! Que jogo. Emocionante até o fim. Luiz Suárez fez a diferença, embora o time todo estivesse bem. Nem parecia aquele que perdeu para Costa Rica. O jogo que vem agora, Japão e Grécia, deve ser morno, o que é bom. Chega de emoções fortes. E viva o presidente José Mujica!
19/06
Olhem que sorte: o professor Pasquale Cipro Neto, na Folha de São Paulo de hoje, fala sobre o uso de à capela ou a capela. Não é taxativo: podem ser usadas as duas formas, me pareceu. Mas a mais bonita é mesmo a forma original, italiana, “a cappella” e mais bonito ainda é ver todo mundo cantando seus hinos assim, a cappella, na abertura dos jogos. Facebook também é cultura.

20/06
Dá para acreditar? Costa Rica classificada para as oitavas e dois campeões do mundo já de fora. Choram espanhóis e ingleses, dançam e cantam costa-riquenhos. Os que entendem de futebol chamavam esse grupo de “grupo da morte” porque tinha Inglaterra, Itália e Uruguai. Costa Rica estava aí só para constar. E olhem a surpresa: o time joga bem demais. 
As guerras deviam ser travadas pelos times de futebol dos países em luta. Ou pelos grupos em luta. Assim, teríamos grande campeonatos entre israelenses e palestinos, entre sunitas e xiitas, entre a Al-Qaeda e os norte-americanos, por exemplo. Não haveria mortes e todo mundo se divertiria. 
A Copa continua ótima, mas tenho um triste reparo a fazer: sumiram com os moradores de rua aqui de Brasília. Não se vê nenhum deles em lugar nenhum. E ouço no rádio que o Ministério Público já foi acionado para se saber o que está acontecendo. Onde estão os “humilhados e ofendidos” de todos os dias?

21/06
A Argentina continua devendo. Que jogo mais amarrado e sem emoção. Cruz, credo. A notar: os cabelos dos jogadores,todos tão armados com gel ou seja lá com que for, que eles correm, tropeçam, caem, se enroscam e o cabelo bem arrumadinho sempre. Que gente mais vaidosa.

24/06
Passamos para as Oitavas sem aflição. Apenas poucos momentos, depois do empate de Camarões. Mas aí vem o nosso garoto Neymar e faz bonito. Hoje vai ser terrível: Uruguai ou Itália? Torço pelo Uruguai, não tenho nada com o que aconteceu em 50. E sábado vai ser fogo: nós ou os chilenos. Andrés será um homem “partido ao meio”. Depois se reconstruirá. A Copa está bonita: nós recebemos bem os nossos visitantes e isso vem de longe. Continuamos os mesmos índios que receberam alegremente os viajantes portugueses. Não sabíamos o que viria depois…

26/06
Achei a punição contra o Luis Suárez severa demais. Tendo a concordar com o Lugano: há perseguição. Errou, errou.Mas precisava ser tão grande a pena? Se o Uruguai não fosse um país tão pequeno, se a Federação de Futebol de lá fosse mais rica, a penalidade seria essa mesma? Tenho dúvidas. E como é que a FIFA tem esse poder tão grande? Entra nos países, dá ordens, cria regras, fala mal, manda e desmanda, não paga nada, só lucra? É mais forte e poderosa que a ONU. Sou contra a FIFA. Detesto a FIFA.
Valeu a classificação da Argélia pela comemoração dos argelinos. Ai, quanta alegria! E agora que vai começar o tempo do Ramadã, como eles vão jogar jejuando? Eles e os demais jogadores muçulmanos?
Continuarei observando esta Copa com meu olhar incorreto.

27/06
Hoje não tem Copa, mas aqui do Observatório vejo outras coisas. E assim como achei muito feio os xingamentos à presidente Dilma na abertura da Copa, acho de total deselegância este trecho do discurso de Lula na convenção do PT:
“A gente vai provar que é possível uma presidenta e um ex-presidente terminarem seu mandato sem que haja nenhum atrito entre os dois, numa demonstração de que é plenamente possível o criador e a criatura viverem juntos em harmonia”
Como assim, criatura?!!! A moça é a presidente do Brasil. Depois não venha de rosa branca.

28/06
Aflita, com taquicardia, e um pouco zangada, discorro do meu Observatório: 
É bom ver nos tempos atuais os homens procurando desenvolver seu lado feminino, mas convém não exagerar. É o que está acontecendo com a nossa jovem seleção. Estou começando a me indignar com tanto chororô. Minha vontade é voltar pros antigamente e dizer em alto e bom som: “Meninos não choram!” Joguem futebol, vocês sabem. Outro jogo como o de hoje ninguém aguenta. Ganhamos nos pênaltis e por sorte. E pela atuação do Júlio César. Mas ele carrega tanta culpa pela Copa passada, que devia ter se tratado antes de ser convocado. Sei não, foi um sufoco. Achei o Chile melhor. Espero ver jogos melhores da nossa seleção.
30/06
Ontem a tarde foi de emoções. O México segura heroicamente uma vitória parcial de 1 X 0 por todo o segundo tempo para nos quarenta e cinco minutos finais ver a Holanda empatar e virar o jogo. Repito, por concordar, o que ouvi de mais de um comentarista esportivo: todos os times que estão tentando segurar jogo, seja vitória magra, seja empate, terminam por perder. Mas se o jogo foi pior, a emoção foi maior com Costa Rica X Grécia. Costa Rica com dez homens, a Grécia tentando tudo, um duelo digno de uma narrativa de Homero. Mas logo Homero cede lugar para Sófocles e a tragédia se instala: Gekas tem seu pênalti defendido por Navas, e a noite e o silêncio caem sobre a Grécia.
Resolver jogo em cobrança de pênaltis é um filme de terror. Deus nos livre de outra. Basta aquela com o Chile.
E uma pergunta final: Por que em um dia com 24 horas escolhe-se jogar a uma da tarde em cidades com clima quente e úmido como Fortaleza ou seco como Brasília? Razões de mercado, maldade pura?

2/07
Do meu Observatório e Auditório
Se tivemos poucos gols nesta passagem para as Quartas, tivemos grandes jogos e grandes emoções. Ninguém pode se queixar de monotonia nesta Copa. Argentina X Suíça, Bélgica X Estados Unidos lutaram bravamente. Por razões maiores, só ouvi o final do jogo da Bélgica com os Estados Unidos. Nada como o bom e velho rádio para transmitir emoção. Um momento de distração e ouvimos um imenso, um infindável goooooooooooool. !!! De quem seria? Até que ó locutor pronunciasse a palavra Bélgica se passou uma eternidade. E depois outro gol da Bélgica, e outro gol, dos Estados Unidos. Depois dessa experiência, uma certeza: não ouvirei a partida Colômbia X Brasil pelo rádio nem morta. E vamos em frente. Só não digo “pra frente, Brasil! ´,embora a frase seja boa, porque ela traz lembranças daquele terrível tempo do Médici. Assim, vamos em frente é bem melhor.

4/7
Esta Copa do Mundo nos leva do céu ao inferno. Hoje passamos para as semifinais jogando bem melhor; hoje Neymar se machucou seriamente e está fora, o que nos entristece a todos e não apenas por causa dos jogos que ainda temos pela frente. É pela tristeza de ver um jovem cheio de talento e com grandes esperanças fora do mundial. Mas seguimos em frente. E penso aqui com meus botões que a Alemanha não é imbatível, embora jogue bem e bonito. É só lembrar Alemanha X Argélia. Quase, quase… Um momento bonito de hoje: O David Luiz consolando o jovem James após o jogo.

5/7
Depois das cobranças de pênaltis no jogo entre a Costa Rica e a Holanda, descobri que tinha até me esquecido com quem a Argentina tinha jogado. Ah, foi com a Bélgica. Jogo bom, só um gol, mas deu gosto ver. Continuo esperando um grande jogo da Argentina. Já o jogo Holanda e Costa Rica esteve muito chato durante o tempo regulamentar. Tive até vontade de pôr os dois à venda e dizer contente quando eles desaparecessem “fiz um bom negócio”. Depois melhorou. Acho que tem trave encantada nesses estádios do Brasil. O que a trave salvou a Costa Rica… Até lembrei a que nos salvou do gol do Chile no último minuto. Mas os holandeses tinham uma arma secreta: Tim Krul, o goleiro gigante. Temos já os finalistas. Quem ganhará a Copa, Brasil, Alemanha, Argentina ou Holanda? Estamos perto do final de um tempo bom de dar gosto. Como vamos viver depois da Copa? Aos costarriquenhos, a nossa admiração. Fizeram bonito. E mais admiração ainda por viverem em um país democrata e pacífico. Um país que nem exército precisa ter.

6/7
Ontem à noite desci do meu Observatório e entrei na Copa. Lucas, depois de um telefonema e da necessária aprovação, trouxe quatro jovens argentinos para dormir aqui em casa. Eram amigos de um amigo dele dos tempos de Austrália. Foi uma festa. Inês, que sonha com o grande final Argentina X Brasil, teve seu sonho compartilhado pelos quatro, apenas nos sonhos o desfecho é diferente. Não tive trabalho, apenas o de separar lençóis e toalhas. Lucas e Fabiana cuidaram de tudo. Depois de ouvir um pouco a mistura de espanhol, português, portunhol e inglês, me recolhi com o meu livro. Deixei a casa para os jovens. Estava feliz por participar dessa corrente de solidariedade e hospitalidade que percorre o Brasil. Agora, enquanto escrevo todos eles dormem. E eu continuo feliz.

8/7
Aviso aos navegantes: o observador deste Observatório hoje vai ficar levemente embriagado. Duas cervejinhas long neck ou três taças de vinho, ainda não sei. Isso para me permitir ver o jogo sem um ataque cardíaco. E na falta de jogo para comentar, e talvez contrariando a gregos e troianos, falo da entrevista que li do senador Aloysio Nunes e gostei. Um trecho bonito é quando ele fala de José Dirceu, amigo dos tempos de faculdade. Ponto para os dois: a um por assumir a amizade; ao outro por despertar tal sentimento. E uma poeta na revista piaui desse mês, Chelsey Minnis, me encantou. Até amanhã e com a vitória, espero e desejo

9/7
Diante de uma tragédia as palavras nos faltam. O que dizer? Descrever a derrota? Acachapante, vergonhosa, humilhante, monumental, dantesca? Não. Ir aos antigos? Lembrar o veni, vidi e vice de Júlio César comunicando ao Senado de Roma sua vitória na batalha de Zela? Talvez por aí. Talvez seja essa a mensagem enviada por Joachim Low à Angela Merkell. A nós resta sofrer o Ai dos vencidos! E é o que somos hoje: um povo derrotado e vencido. Nossos pobres jogadores zanzando pelo espaço próximo às traves me lembravam Ricardo III em meio a uma batalha perdida gritando por um cavalo. Que não veio. Que não tinha por que vir. 
Depois do quinto gol, resolvi sair para comprar pão. Na padaria, um pequeno grupo assistia em silêncio ao jogo em uma televisão. Um velório. A jovem caixa falou não sei se para mim, não sei se para ela mesma, “e gastar tanto para isso!” Não falei nada. Voltei. E no carro ouvi a narração do gol do Oscar. Não adiantou, eram os minutos finais. Tento desde ontem cantarolar “levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima”, mas a voz não sai. A dor e a vergonha caíram sobre nós. Só nos resta o silêncio.

10/07
Começando a juntar os cacos. 

E três notinhas breves:
– penso que os jogadores, apesar dos pesares, não merecem nosso repúdio. Só quanto aos cabelos pintados em hora que devia ser de treino. Já a comissão técnica… merecia pelo menos uma investigação. E se comprovada a incompetência e desleixo, como nós achamos, deveria ser proibida de enganar outra geração, a da Copa de 2018. E a CBF mereciaser alvo de uma CPI séria. Não de mentirinha como essas que estão aí; 
– os alemães, além do excelente futebol, estão dando baile também em educação. A mensagem do Podolski aos jogadores brasileiros é muito delicada;
– sentida com a morte de Plínio de Arruda Sampaio, um grande homem e um político que nos deu orgulho.

12/07
Ganhamos a Copa do Mundo fora do gramado. Hoje o público presente no estádio Mané Garrincha mais uma vez mostrou isso: recebeu bem a seleção brasileira, aplaudiu enquanto deu, começou a vaiar na hora exata, bateu palma para os holandeses e assistiu com educação à premiação do terceiro lugar, coisa que a seleção não fez, saindo de campo deselegantemente. Como já escreveu João Ubaldo, Viva o povo brasileiro!

12/07
Como o Brasil não merecia o 4º lugar na Copa, Tiago Silva? Como jogou bem, Felipão? Como foram apenas 6 minutos de apagão? Como o time jogou bem? Como? Como? 

Razão tem a Maitê Proença, nos Extra-Ordinários, quando diz que a zebra desta Copa foi o Brasil. Pois foi. Duro constatar isso. 

Já nem me incomodei com a derrota pra Holanda. Depois da lavada de 7 a 1, o que são 3 gols? Nadica de nada. Um passeio pros holandeses, a foto do goleiro deles que corre as redes está aí para comprovar. 
Acho que com tempo e paciência os teóricos de futebol vão encontrar e explicar as razões do nosso fracasso nesta Copa. Duvido, porém, que eles consigam decifrar o enigma do Murtosa e o seu papel na comissão técnica.

13/07
E chegamos ao fim de uma bela Copa do Mundo. Vivemos muitas coisas. O Brasil era só festa. Corações abertos para os visitantes, mostramos as belezas do nosso país e a ternura e a educação do nosso povo. Nossos vizinhos sul americanos sentiram-se em casa, os europeus continuam desde sempre nos desejando e invejando nosso jeito de ser, os africanos, nossos pais e irmãos, não querem ir embora. E li que muitos disseram que todas as Copas do Mundo deviam sempre se realizar no Brasil. Precisa mais? Da tristeza da semifinal e do melancólico jogo pelo terceiro lugar, não quero falar mais. Apesar de, ficaremos com saudade deste tempo. Shakira e seu rebolado, a guitarra de Santana, aquele haitiano maravilhoso, Ivete Sangalo, e o que Carlinhos Brown estava fazendo lá? Fizeram um bom encerramento. E quando dei por mim, estava chorando. Chorar ouvindo Alexandre Pires? Nem em meus sonhos mais loucos isso poderia acontecer. Mas aconteceu. Saudade da Copa.
Tanto a Alemanha como a Argentina poderiam ficar com a taça. Deu Alemanha. Fiquei feliz. Parabéns aos campeões!

2 Responses para “Pequenas notas sobre a Copa do Mundo no Brasil”

  1. Mazé
    13/07/2014 at 23:05 #

    Excelente idéia!

    • Cléa Sá
      Clea
      14/07/2014 at 18:42 #

      Obrigada, Mazé. Você é uma leitora estimulante. bjs
      clea