Aloísio Brandão

Uma sanfona na noite

Escrito por Aloísio Brandão.

  1. Aloísio Brandão Ao poeta e compositor Climério Ferreira, que me ensinou a ouvir sanfona até onde ela não existe.
    A primeira noite, em nossa nova casa, na Rua Padre Aurélio, foi tomada por encantamentos, e nos despertou um orgulho desmedido. Papai levara uns dois anos para construí-la, tijolo por tijolo, sob os olhares poético e prático de minha mãe, a quem cabia os cálculos sobre as quantidades de areia, cimento, alvenaria, vergalhões, telhas etc. O cheiro de tinta nova, os ladrilhos de mosaico novinhos sobre os quais poríamos nossos pés, dali em diante; as portas de madeira trabalhadas com arte e que em nada faziam lembrar as velhas portas rudes fechadas a tramelas da velha casa onde morávamos, na Praça da Bandeira. Tudo, ali, parecia dialogar comigo, naquela noite que guardo como uma relíquia na cristaleira das lembranças. A mudança deixou-nos exaustos, mas a sensação de ser hipnotizado pelo novo revigorava minha energia de menino.
    Já eram 22 horas, e o programa “Musical Record”, do serviço de alto-falante “A Voz Record” (“com seus quatro potentes projetores para toda a cidade”, como salientava a apresentadora e proprietária do serviço, Nicinha de Lê) despedia-se dos seus ouvintes com o implacavelmente triste “Toque de silêncio”. A cidade, então, mergulhava no mais fundo vão daquelas horas grandes. Tudo era paz, na velha Santana dos Brejos. Só uma meia dúzia de “lobisomens” inofensivos (estes que devoram as madrugadas, ora em busca de um amor impossível e sigiloso, ora acatando as ordens da impiedosa cachaça), zanzavam por becos e ruas, mas sem quebrar o sossego. Quando não, eram as corujas rasga-mortalhas que varavam o vazio em busca de uma presa, ao tempo em que faziam tremer de medo as mulheres que alimentavam a mística segundo a qual aqueles pios inflamados estavam carregados de agouro. No mais, era algum casal de gatos ou cães, aqui, outro acolá, em seus ganidos de acasalamento.
    Naquela primeira noite, em nossa nova casa, uma hora depois de o programa de Nicinha de Lê sair do ar, meu irmão, César, e eu fomos para o nosso quarto. O sono, contudo, não vinha. Aliás, o sono não combinava mesmo com aquele feixe de novidades plantado em nossa casa, em nosso novo quarto. Tudo era tão desigual. Passamos, então, a fazer a leitura dos novos caibros, ripas, telhas, todas tão diferentes daqueles da casa velha com que estávamos acostumados. De repente, eu descobria uma ranhura grande num caibro que fazia lembrar um cachorro e avisava ao mano que, de pronto, desafiava-me a descobrir em que telha havia uma marca parecida a um peixe. E, assim, nós nos entregamos às horas, nessa descoberta que meninos adoram fazer.
    A janela de vidro, outra novidade que não conhecíamos na casa velha, ensejou-nos novas descobertas. A janela deixava passar um tico da luz tênue que vinha do poste da rua. Dependendo do movimento da cortina, quando soprada por um ventinho qualquer mais atrevido que entrava por frestas, projetavam-se animais, flores e assombrações na parede. E nós ficávamos, ali, descobrindo uma casa dentro da outra; assuntando as coisas da noite, na casa que nos veria crescer e entrar na adolescência; vigiando o invisível e o novo, como se passássemos em revista uma tropa de soldados que, também, não conhecia o seu quartel.
    A conversa interminável e meio sussurrada – para não acordar os nossos pais – com meu irmão foi interrompida, quando ele me chamou a atenção para uma música que vinha de longe. Parecia encantada, pois que difusa, imprecisa. Vinha, desaparecia, voltava. Tão pequeno o volume que eu custava a identificar a música, e até mesmo o instrumento. Ou sequer se vinha de um rádio, uma vitrola. Foi quando o meu irmão pontificou: “É a sanfoninha de Zé de Marco”. A nossa conversa parou, ali. Todo o meu interesse, dali em diante, era no sentido de devorar aquela coisa pura, bela e definitivamente brejeira: a música de Zé de Marco. De momento, o volume da música cresceu. Foi quando identifiquei “Pisa na fulô” (música de Ernesto Pires e Silveira Júnior e letra de João do Vale). Minutos depois, era uma valsa que invadia o meu quarto. Vinha de longe, lá da Rua de São João, perto do que, hoje, o santanense chama de Espinhaço da Gata, já a caminho do povoado do Tabuleirinho. Ali, sempre, morou Zé de Marco, um moreno meio sarará, dos olhos clareados, das mãos ágeis no teclado da sanfoninha de oito baixos e do coração lotado de música.
    Toda noite, quando o silêncio buscava a cidade para dormir, lá vinha a sanfona de Zé de Marco vagando ternura, como se salpicasse sobre as casas e os ouvidos um mistério qualquer que arrebatava até as almas perdidas. Até sair de Santana dos Brejos, no sertão oeste da Bahia, dez anos depois, para estudar – primeiramente, em Petrolina, e, depois, em Brasília -, aquela sanfona embalou as minhas noites. E eu, ainda, a ouço, quase toda noite, aqui em Brasília, no Rio ou onde mais estou.
    Àquela época (nos anos 70), Santana dos Brejos tinha não mais que 8 mil habitantes. Dormia-se, cedo. Nas noites frias, enchia-me de prazer, ao afrontar o sono, chegar o cobertor até o rosto, dando um jeito de deixar apenas as orelhas de fora e nutrir-me de uma Valsa, um Xote, um Baião, um Forró obrados pela sanfoninha de Zé de Marco.
    Certa noite, em Brasília, numa dessas nossas cervejas, às sextas-feiras, no Bar Berlim, quando botamos a poesia e a música em dia, Climério Ferreira, piauiense de Angical, um dos maiores compositores deste País (ele é autor das letras de “Enquanto engoma a calça”, “Lagoa de Aluá” e “Flora”, sucessos na voz de Ednardo; “Conflito”, cantada por Fagner; “Riso cristalino” e outras mais de 20 em parceria com Dominguinhos, e “O sobrevivente”, comigo), e de quem tenho a honra de ser parceiro, disse-me que um dos seus filhos – a Julinha, a doce roqueira da casa – perguntara-lhe, quando ele ouvia um forrozinho na vitrola: “Uai, pai, você só ouve sanfona, é?”. E Cli, do alto de sua brandura, respondeu-lhe: “Não é que eu queira só ouvir sanfona, não. É que há uma sanfona dentro do meu DNA, dentro de minha cabeça, que vive tocando pra mim, o tempo todo”. Climério me disse, ainda, da mesma alegria de ir a uma festa, em sua Angical, e, de muito longe, identificar a sanfona que vinha vindo, como se, sempre, estivera, ali.
    Aprendi com Climério sobre a grandeza de uma sanfoninha de oito baixos. Dessas que, quando a gente menos espera, já está dentro do nosso quarto, de nossa alma, de nossas lembranças.

Sem comentários ainda.
Sem comentários ainda.