Aloísio Brandão

O POETA E A CIDADE

Por Aloísio Brandão.

O dia mal amanhecia, quando botamos os pés na calçada de casa. Uma emoção tomou-me pelos nós da espinha, quando deixei a bolsa de viagem e bati palmas à porta. Não demorou e o rosto iluminado do meu velho apareceu na portinhola. Veio nos receber com um riso que ia de orelha a orelha, mas, antes ainda de nos cumprimentar, tomou pelo braço o meu amigo e parceiro de música, o poeta e compositor Vicente Sá, que chegava para passar dias de férias, e o levou ao jardim que ficava na lateral. “Olhe isto primeiro”, disse-lhe, cheio de ternura. E o poeta aproximou-se do pequeno ninho esbranquiçado. Havia, ali, dois beija-flores indefesos. Vicente Sá mirou os olhos de Seu Bené e disparou à queima-roupa um poema como se quisesse pagar a prenda. Só a partir daí, o meu pai abraçou-nos e nos desejou boas-vindas. Estávamos em casa; estávamos no coração; estávamos na poesia. Os beija-flores foram uma senha para o que haveria de vir – em poesia -, naqueles dias, em Santana dos Brejos.

O café daquela e das demais manhãs – e os almoços -, sempre, longos e animados, acabariam virando saraus. Amigos vinham à nossa casa – e eram recebidos com o velho e bom riso do meu pai -, todos os dias, na certeza de que teriam à mesa outro pão: a poesia nova, desconcertante e vibrante de Vicente Sá. Lá pelas 10 horas é que saíamos para bater perna. Visitamos amigos e acabávamos nos dirigindo a uma dúzia de bares, onde tomávamos uma para o almoço.

E, ali, sob os olhares encantados dos conterrâneos, Vicente Sá, como um mágico, fulminava a todos com a sua poesia desconcertante. E ai do poeta se, num único dia que fosse, não passasse naqueles estabelecimentos para falar, do seu jeito manso e personalíssimo, alguns dos seus poemas. De repente, as esquinas e as casas, também, foram sendo tomadas por sua poesia. Quantas vezes, tivemos que interromper nossos passeios para o poeta “acudir” um grupo que clamava por seus versos.

Mesmo na área rural, Vicente Sá andou semeando a sua poesia. A Venda do Velho Arnaldo, no povoado do Tabuleirinho, a cinco quilômetros da cidade, foi um ancoradouro de sua arte, de sua verve. Fomos, ali, várias vezes, a pé, acompanhados de uma troupe de gente de ouvidos de plantão para Vicente. À tardinha, quando os homens voltavam de suas roças empapados de suor, enxadas nas costas e um dia de cansaço para dissolver numa talagada de Zé Nunes, a legítima cachaça santanense, a Venda do Velho Arnaldo, um homem baixinho, arqueado e do riso desdentado, era o cenário onde o poeta soltava a sua palavra viva. E os cabras, sentados em cepos e batentes das portas, prendiam o fôlego para ouvir, por exemplo, uma pérola como esta (eu a musiquei), chamada “A canoa”:

“Passei a vida inteira
Criando a minha alma
Mas não foi à-toa.
Um dia, ela será
A minha canoa”.

E, lá, se ia Vicente Sá como um caixeiro viajante carregando um tipo de mercadoria que não pesa no lombo da tropa, mas enche os alforjes; que não se vende nem se compra, não se anuncia nem se despede de ninguém. Esse poeta da palavra certeira parecia, ainda, que andava tecendo uma renda, de casa em casa, de praça em praça, de beco em beco, como se se cobrasse a responsabilidade de lotar a cidade de versos. E, em verdade, ele se cobrava mesmo, porque sabia o que pode a poesia.

Sei que, duas semanas depois, a cidade rendia-se feliz, diante da presença do poeta, ali. E era como se já não aceitasse mais a sua ausência. Quando ele entrou no ônibus de volta para Brasília, um grupo de pessoas punha-se diante da janela, acreditando que a despedida fosse apenas mais uma de suas mentiras ou dos poemas que inventava, no calor de um repente. E que o poeta fosse sair por uma porta inexistente dos fundos. A cidade entendeu, então, que a poesia é para transformar.

Escrito por Aloísio Brandão.

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