Aloísio Brandão

O JAPONÊS

Por Aloísio Brandão.
 
Da pensão de D. Mariinha Coelho, localizada à Praça da Bandeira, via-se, à direita, a Igrejinha do Perpétuo Socorro e o largo inteiro, com seu casario tímido, geminado, com fachadas exatamente iguais: uma porta e quatro janelas e telhados escurecidos pelo mofo e picumã acumulados, ao longo de décadas. As calçadas, em ladrilhos de barro e de única aparência, emendavam-se umas às outras como se construídas duma só vez e por um só morador. No centro, o grande jardim e seu coreto carente de música, mas pleno das travessuras da meninada. A Praça era a paz. Nada, ou quase nada, quebrava-lhe a ternura e a singeleza, não desconstruía aquela firme teia de amizade sincera entre os moradores, não sacudia a sua rotina, até o dia em que um acontecimento revirou o dia-a-dia, principalmente da meninada, e ganhou importância nas rodas de conversa dos mais velhos.
Um dos bancos da Praça – o que ficava exatamente de frente para a Igrejinha – abrigava os mais velhos, a exemplo de Seu Benedito, meu pai, e seus amigos. Bino, João Abóbora, Edilson Martins, Demóstenes Filardi, Tombinha, Quinca de Bininha, Doão, Nezinho Pinheiro, Isaías Araújo, Anízio Gonçalves, Trajano, os irmãos Tõe e Mirim Abóbora, entre outros, reuniam-se, ali, à noite, para, como diziam, palestrar.

A chuva que não veio ou a que se excedera, o preço da arroba do boi, a lavoura tardã, a chegada do novo padre, um fato fantástico, as notícias transmitidas pelas rádios “Globo”, “Tupi” e “Nacional”, do Rio, e “Bandeirantes”, de São Paulo. Tudo ganhava os comentários desses homens do bem que jamais saem de minha memória.

Mas o fato que deveras sacudiu a rotina, especialmente da meninada, lá para 1965, foi outro. Eu era muito menino, mas me lembro bem quando Eudinho, meu vizinho, amigo e parceiro de estripulias, chegou esbaforido para me dizer – e, também, ao meu irmão, César – que um japonês havia chegado à cidade. “Um japonês? Meu Deus. Cadê ele?”, perguntei-lhe incrédulo, confuso e assombrado.
 
Descobrir onde alguém se encontrava, em Santana dos Brejos, era fácil para nós, meninos que não conheciam fronteiras nem limites, que entravam em todas as casas, quer pelas portas, pelas janelas, pelos muros dos fundos ou mesmo pelos telhados; que reviravam tudo; que explodiam as panelas cheias de comida com bombas, que mijavam dentro dos rádios, cagavam dentro das taças e jarras abrigadas com zelo dentro das cristaleiras; que jogavam sal nos açucareiros e terra nos tachos de doce. De sorte que, não demoraria, e nós, os meninos, daríamos conta daquele que seria o mais novo e importante fato que tomaria conta da cidade que, então, não contava com mais que cinco mil habitantes e longe mil quilômetros de Salvador (Brasília, ainda, não era um destino dos santanenses): a chegada de um japonês.

Eudinho, agitado, previu que ele estivesse na pensão de D. Mariinha Coelho ou de Albertina. Corremos para lá e, antes mesmo que entrássemos, eis que surge, no comprido corredor da pensão, o que movia os nossos espíritos: o japonês.

Afastei-me abruptamente para lhe dar passagem e por não saber ao certo o que significava um japonês. Nunca tinha visto um, sequer numa página de revista, jornal ou livro, o que não seria de se estranhar, numa cidade aonde raramente chegava um veículo de comunicação impresso. E mais: não havia televisão, ali. O rádio era o que nos fazia crer na existência do resto do mundo. Exagero à parte, havia aquele que, aventurando-se numa viagem de dias, conseguia chegar a Salvador e, quando voltava, dizia orgulhoso: “Cheguei da Bahia”. E todos sabiam que estivera na Capital do Estado e se cercavam dele para lhe ouvir histórias.

Sei que era a primeira vez que um japonês punha os pês, em Santana dos Brejos. Em minutos, uma turba de uns 20 meninos como eu tomou a calçada da pensão. Eu não desgrudava os olhos dos olhos do homem que veio do outro lado do mundo. Uma vontade incontrolável moveu-me até ele, porque eu precisava tocar-lhe o corpo, como se quisesse provar a sua existência. Em meio aos adultos curiosos que, àquela hora da tarde, também, começavam a tomar porta da hospedaria e a rua, eu levei a minha mão ao seu braço. “É igual a gente, de verdade”, eu disse a Eudinho. Ele repetiu o meu gesto.
 
E o homem, meio assustado e exibindo um breve riso de meia-boca, saiu andando pela calçada. Àquela altura, a cidade já sabia da novidade. E, à medida que rompia apressado o cerco dos espectadores e levando à mão uma pasta de couro marrom, o japonês arrancava das janelas olhares de assombro. As pessoas, entre descrentes e espantadas, saiam às calçadas para ver de perto a criatura. Era, em verdade, um representante de um laboratório farmacêutico e estava fazendo a praça. Visitaria as duas farmácias do lugar.
Vê-lo apenas à porta da pensão de D. Mariinha Coelho era muito pouco. Eu e os demais meninos precisávamos perpetuar a imagem daquele homem de uns 40 anos, baixa estatura, calça e cinto brancos e cabelos pretos divididos ao meio. Então, resolvemos segui-lo pelas ruas. Quando eu achava que era preciso reforçar a imagem do seu rosto em minha memória, aí, eu corria, tomava a dianteira e saía andando de costas e de frente para o japonês.

Na venda e sapataria de Edilson Martins, o homem dos olhos apertados era o tema central. “Quem diria, Edilson, que, um dia, um japonês viesse a Santana dos Brejos”, admirou-se um deles. “É. O mundo está mudado mesmo. Como é que um homem pode sair do outro lado do mundo e parar, aqui?”, completou o outro. O mundo começava a se encolher, ali.   

Escrito por Aloísio Brandão.

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