Aloísio Brandão

O canto de João

Por Aloísio Brandão.

O velho ônibus deu partida, sacolejou, ganhou velocidade e foi deixando Brasília para trás em direção a Santana dos Brejos, a 670 quilômetros Nordeste adentro. Era uma manhã meio fria e seca de início de Julho de 2006. Conheço este estradão de cor e salteado. São 33 anos indo e vindo, no mínimo duas vezes por ano, de uma cidade a outra. A viagem, sempre, foi marcada por surpresas brejeiras.

Não seria diferente naquele Julho de 2006, numa viagem que mal começava (as viagens, em verdade, iniciam-se, ainda, na rodoviária, na alegria incontida do encontro entre conterrâneos tortos de saudade e famintos de desejo de notícias das bandas de lá). Como as outras, ela haveria de ser doce e tranquila. Ou, quem sabe, reservaria alguma inesquecível surpresa.

E lá se ia o velho ônibus da Viação Novo Horizonte chacoalhando-se inteiro. Parecia mais uma pracinha de Santana dos Brejos, com tantos passageiros em pé, um diante do outro, numa conversa sem pausa. Aquilo era a mais surreal algaravia, e chocaria os viajantes bem comportados do Sul acostumados a viagens frias, silenciosas, em que ninguém sabe do vizinho de poltrona. Realce-se que as viagens cada vez mais acessíveis de avião vêm tirando dos estradões muitos dos velhos viajantes de ônibus, asfixiando as suas sagas.

No nosso ônibus, não. Ali, os santanenses falavam das gentes dos seus povoados, contavam histórias e anedotas no mais puro “santanês”, discorriam sobre a chegada da novena de Nossa Senhora Sant’Anna, a Padroeira do lugar; riam de orelha a orelha. Mais um pouco, e pedaços de bolo com café já corriam, de mão em mão, a despeito dos solavancos. Os que se mantinham sentados, de repente levantavam-se também e trocavam de cadeiras com os outros. O santanense é assim mesmo: festivo, solidário e bom contador de histórias. Um não pode encontrar-se com o outro. E quando o encontro dá-se fora de nossa terra, aí, a festa é garantida.

Uma hora e meia depois, parávamos em Formosa, a primeira das três cidades de Goiás que separam Brasília da Bahia. Dali, tocamos para Alvorada e, em seguida, Posse. No meio desse trecho, uma parada mais longa para o almoço, no Rosário. Eu prefiro, quando vou de ônibus, levar meus sanduíches naturais e sucos que acondiciono numa pequena lancheira térmica abrigado numa grande bolsa a tiracolo. Nesta, eu levo, ainda, livros, cadernetas para anotações e um microgravador (sabe-se, lá, a hora em que vem um verso? Uma melodia? Melhor é estar prevenido), tocos de lápis e um bom MP4 lotado de músicas.

No mais, é virar um monge, dotar-se de paciência, grudar na poltrona – quase sempre com algum defeito – e esperar que o ônibus vá tragando, légua a légua, o ermo da Serra Geral que nos acompanha, à direita (na ida) e nos coloque sertão adentro, desfolhando a bainha verde dos buritizais e das matas penduradas na Serra. Por isto, gosto de viajar no ônibus que sai pela manhã. Ele preserva o terno encantamento das horas graúdas (aquelas horas que não sabem passar) que trazem, com a calma brejeira, o sertão para dentro da gente bem devagar.

Talvez, aquele sossego em ônibus seja calculado para ser exatamente o tempo suficiente para nós, passageiros esfomeados de saudade, amoldarmo-nos à fôrma do sertão. Aos poucos, vão-se chegando os cheiros, os gostos, as vistas e outros sinais sertanejos, à medida que o carro avança. A conversa em “santanês”, durante a viagem, já é uma maneira de se antecipar e de se estar, no sertão, antes de se por os pés, lá.

O sol já havia nos deixado, a coisa de uma hora. E faltavam uns 15 quilômetros para entrarmos na pequena e bela Correntina, quando vi, longe, no retão da estrada, algo que me pôs entre intrigado e extasiado. A princípio, achei tratar-se de um balão vermelho e muito luminoso. Já ia chamar o vizinho de poltrona para me tirar a dúvida, quando outros passageiros exclamaram: “Gente, olha a Lua!”.

Nosso satélite rebentava grande e vermelho, como é do seu costume, nos meses do meio do ano. A Lua parecia grudada ao chão, ainda, de onde ia desprendendo-se, aos poucos, como se estivesse espreguiçando-se, mansamente.

E foi, aí, que veio o inesperado. João Seiscentos, o motorista, pleno de poesia e romantismo, encostou o ônibus no acostamento que não existe e, alto e bom tom, diz aos passageiros, como se devesse aquela satisfação: “Gente, eu não vou mais dirigir, não. Quem vai levar o carro é o outro motorista. Agora, eu vou é cantar”. João era um sujeito da paz e da alegria. Foi jogador de futebol, vaqueiro; dirigiu caminhão e ônibus.

Sentou-se num degrau da escada que liga a cabine de passageiros à do motorista (o velho ônibus já não contava mais com a porta que separa uma área da outra) e, inebriado diante daquela vermelhidão lunar que brotava do chão à frente de todos nós, no meio da estrada, João Seiscentos arrancou do peito uma fieira de músicas. Começou com “Colcha de Retalhos” (Raul Torres) e “Índia” (J. Assuncion Flores e Manuel Ortiz Guerrero, com versão em português de Zé Fortuna), imortalizadas nas vozes arrebatadoras de Cascatinha e Inhana. Afinado e de voz possante, João arrancou os aplausos de todos.

Aí, ao fim das duas músicas, uma senhora de seus 80 e tantos anos que a maioria, ali, não reconhecia, mergulhada em lágrimas, revela seu nome e o de sua família. Diz que saíra de caminhão de Santana dos Brejos, fazia 50 anos, e que, na partida, o alto-falante da cidade tocava exatamente aquelas canções. “Eu não posso ouvir essas músicas, meu filho, que choro muito. Estou voltando, pela primeira vez, desde que saí de minha cidade, e você me presenteia, agora, com essas músicas tão belas”, disse ao motorista-cantor. A senhora, então, perguntou-lhe se poderia cantar junto com ele. E convidou a todos a participarem do concerto. A viagem transformou-se num recital de mais de 40 vozes.

Em seguida, vieram “Meu Primeiro amor” (Hermínio Gimenez), “Noites do Paraguai” (Nogueira Santos), “La Paloma” (Sebastian Iradier e Salaverri, com versão de Pedro de Almeida), “Flor do cafezal” (Luiz Carlos Paraná), “Chuá, chuá” (Ari Pavão e Pedro De Sá Pereira), todas enormes sucessos nas vozes dos mesmos Cascatinha e Inhana. O repertório, ora puxado por João Seiscentos, ora por alguns passageiros, incluía ainda composições de Waldick Soriano, Ataulfo Alves, Paulinho da Viola, Roberto Carlos e obras cantadas por Nelson Gonçalves e outros.

O cansaço, realmente, não pega mesmo o sertanejo, assim, por qualquer ninharia. Nem mesmo uma viagem de 12 horas. O ônibus, que deixara Brasília fazia exatos 12 horas, manobrava para estacionar na pequena rodoviária de Santana dos Brejos. Pela janela, vi o meu irmão, César, ansioso para levar-me para casa. Tantos rostos alegres de parentes aguardando os seus.

O ônibus para, o motor é desligado, mas, minutos depois, passageiro algum deixa o carro. Do lado de fora, ninguém entende o que se passa ali dentro, que consegue manter a todos em suas poltronas ou em pé. Meu irmão gesticula, perguntando-me o que está acontecendo. Eu, então, abro a janela e lhe digo: “Entre e venha ver o que está acontecendo, aqui”. Dentro, ele, comovido, acaba participando do recital improvisado e em movimento que fez daquela uma viagem dentro da outra.

Escrito por Aloísio Brandão.

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