Aloísio Brandão

O circo que não estreou

Por Aloísio Brandão.

Aquele alvoroço de meninos serelepes e curiosos, de pés descalços, nus da cintura para cima, num vai-e-vem sem fim, não indicaria mesmo outra coisa que não o surgimento de alguma novidade dessas que punham a pequena e velha Santana dos Brejos, no sertão da Bahia, num movimento vibratório anormal. Naqueles idos de 1965, a cidadezinha de não mais que cinco mil habitantes vivia distante do mundo e prenha de falta de assuntos. Aquela novidade altissonante que punha em frenesi a meninada era a chegada de um circo. Em minutos, a notícia alvissareira esparramou-se pela cidade que nem rastilho de pólvora. Meninos, ali, eram como galos, na madrugada: um recebia o canto do outro e o levava mais além, num movimento contínuo.
E não havia pai que pusesse freio na meninada, impondo-lhe o sacrifício de não ir ao largo localizado ao lado do clube da Operária, onde os circos eram armados. Movidos por uma curiosidade desmedida, a molecada grudava os olhos, de perto, naquele povo chegante; conferia atentamente as suas falas forasteiras; acompanhava a sua habilidade em armar o circo. Aquele som de muitos martelos descendo firmes sobre as estacas de ferro que sustentavam as amarrações de cordas que prendiam a lona não sai da cabeça de nenhum de nós, meninos daquele tempo.
A expectativa ficava reservada à primeira manifestação dos artistas pelas ruas. Tomavam a cidade com seus alto-falantes, suas trapezistas de maiôs e biquínis que faziam prender a respiração dos homens do lugar, seus malabaristas. Mas a meninada reparava mesmo era nos palhaços com pernas-de-pau. No dia seguinte, a cidade estava cheia de meninos andando desajeitados em pernas improvisadas em cabos de enxada ou de vassoura e em pedaços de caibro com tábuas adaptadas para receber os pés dos pequenos.
O mais instigante estava em sairmos gritando atrás do palhaço, animando as ruas, respondendo as suas gatimonhas e perguntas engraçadas e sarcásticas que, hoje, resultariam num processo por racismo ou atentado ao pudor. A paga pelo nosso “serviço prestado” era a entrada, de graça, no circo. Para tanto, éramos ungidos com um sinal na testa (quase sempre, uma cruz pintada com uma tinta firme, que não se apagava). Era o ingresso.
Mas a alegria que animava as companhias que iam a Santana dos Brejos não foi a mesma de quando um circo pequeno, sem cobertura, pobre, visivelmente arruinado, chegou, num certo início de tarde, na cidade. Era um desses circos que andavam sangrando o fim de sua existência, País afora. Chegou e foi, logo, levantando a lona. E ela era tão rota, e os remendos e cerzidos tantos, que se via do outro lado. Os palhaços não foram às ruas, as trapezistas não desfilaram.
Depois de levantada a lona e anunciada a “noite mágica de estreia”, iniciou-se uma chuvarada inclemente que Santana dos Brejos não via, havia dezenas de anos. Uma semana e mais outra de chuva, sem trégua. Veio a terceira semana, e o pobre circo vergou ao peso de sua desventura.
Sem espetáculos que lhe rendessem dinheiro, o pessoal da companhia começou a passar privações. Alugou uma casa de chão batido, onde um amontoado de panos velhos e gente doente, inclusive crianças, pintava o quadro mais desolador e sombrio que meus olhos de menino já viram. Comida, ali, não havia; medicamentos, também, não.
Crianças choravam famintas; artistas aviltados pelo destino cáustico estavam acuados nos cantos das paredes, acocorados, esperando que uma pomba trouxesse um ramo de oliveira, como fez, ao voltar à Arca de Noé para anunciar o fim das chuvas. Fellini talvez chorasse, diante daquela cena, e, abatido, sequer se animaria em filmá-la.
Aquela companhia não tinha carro próprio. Chegou, em SB, na carroceria dum velho caminhão, dividindo o espaço com uma carga de sal e ferramentas para o homem do campo (enxadas, foices, facões, cavadores, picaretas). Agora, como sair dali, sem dinheiro?
Foi o meu pai, Benedito de Amorim Brandão, quem se articulou com os amigos, levantou algum dinheiro, arranjou comida e medicamentos e fretou um caminhão que levasse o circo a um lugar mais a Nordeste, bem mais para cima, onde não chovesse; onde estrelas mais generosas que as de Santana dos Brejos – e não aquelas nuvens pesadas e noites de breu -, fossem o teto daquele circo miserável cobrissem as cabeças dos artistas e da plateia.
O caminhão fretado por papai e seus amigos chegara à casa que acolhia o pessoa do circo, numa manhã turva, chuvosa. Das janelas das casas vizinhas, senhoras acompanhavam a arrumação da carga. Eram lonas rasgadas, panelas velhas, caixas de madeira e muitas malas esburacadas. Outras mulheres regozijavam-se com o povo da companhia circense e mandavam-lhe comida para a viagem.
O caminhão deu partida. E de dentro da carroceria coberta por uma lona, como se quisesse apresentar o espetáculo que não conseguira fazer, em Santana dos Brejos, o palhaço olhou para os meninos tristes que os víamos das janelas e portas, e arriscou um sorriso. O único.

Escrito por Aloísio Brandão.

Sem comentários ainda.