Aloísio Brandão

NA LUA

Por Aloísio Brandão.
A rotina, leve e imune a sobressaltos, era praticamente a mesma, por anos, na velha e pequena Santana dos Brejos. Novidades não entravam, ali, como se temessem envelhecer, antes de atravessar a fronteira da cidade. Mas tudo era de um igual diferente, porque nada, em verdade, se repetia, propriamente. De diferente mesmo, só aquela manhã que, ainda, não passou, nem foi recolhida dos feixes de lembranças meus e de outros meninos que dividiram comigo aquela pureza que rebentara das cabeças daqueles homens que encantaram a minha infância.

Portanto, tudo era feito taliqual ao dia anterior na oficina de fazeção de coisas iguais que era Santana dos Brejos. Zé de Osório, montado em sua pureza e em sua total ausência de pressa, desfilava pela cidade, da Rua da Boa Viagem à Rua dos Canelas, a tabuleta com cartazes do filme a ser exibido, à noite, no Cine da Operária; Olinda, a empregada de nossa casa, às sextas e sábados, empoava-se e se enchia de um perfume forte e meloso, para dançar no Bafo da Onça, de Valdivino Preto, na Rua Apertada Hora, próximo ao beco que dá acesso à Rua das Pedras; Seu Hermírio trazia de sua roça, no Capim, a “gasosa”, uma bebida gostosa, feita de caldo de cana ligeiramente fermentado com grãos de milho quebrados e tomada com bicarbonato, que a fazia espumar como um refrigerante, e que bebíamos, nas feiras dos sábados; o serviço de alto-falante “A Voz Record”, com quatro potentes projetores para toda a cidade, da saudosa Nicinha de Lê, transmitia indefectivelmente o seu “Musical Record”, das 8 às 10 da noite, a partir de quando a cidade entregava-se inteira ao silêncio e às estrelas; o Padre Rodolfo desfilava, desajeitado, em sua velha e cansada Monareta verde-oliva, um ciclomotor que a Monark começou a fabricar, em 1958, e tirou de linha, em 1962; o meu avô, Coli, sem um dia de falta, tomava o beco que se inicia na Casa de Dr. Fragoso e se encerra entre a casa onde morávamos e a extinta sapataria-bar-mercearia de Edilson Martins, para “palestrar” e ouvir “A Voz do Brasil” com papai e alguns vizinhos, enquanto mamãe servia chás de canela ou café com petas, bolo-da-prima ou outros quitutes que saíam do seu forno a lenha; a meninada (eu no meio) brincava solta, ou ouvia histórias de assombração dos adultos na rua que não conhecia carros; a meninada corria, encantada, atrás do Gordini de Docão, como se visse uma coisa do outro mundo (e era mesmo); alunos do Educandário Diocesano Sant’Anna tomavam becos e ruas da pequenina cidade, então, de uns 7 mil habitantes, enfeitando-os com seus uniformes irretocáveis. Tudo era assim, dia após dia.

Mas no dia 20 de julho de 1969, quando beirava a meia-noite, Neil Armstrong punha os pés na Lua, ao desembarcar da nave Apolo XI que levava, ainda, Edwin Aldrin e Michael Collins, depois de quatro dias de viagem, a partir do Cabo Canaveral, na Flórida (EUA). Alguns poucos homens de Santana dos Brejos até que se atreveram, entre um cochilo e outro, a ouvir a transmissão, ao vivo, daquele feito histórico, ao pé do rádio.

Foi no dia seguinte, contudo, por meio dos jornais madrugadores das rádios, que a notícia tomou Santana dos Brejos, como se a cobrisse com um manto de excitação e curiosidade. Claro que as pessoas, ainda que meio descrentes, já vinham acompanhando o noticiário sobre a viagem dos americanos pelo ceuzão de meu Deus.

Em frente à sapataria de Edilson Martins, vizinha à minha casa, eu ouvi os comentários mais eloquentes dos homens que frequentavam o lugar para bater o papo sagrado de todo dia e para tomar cachaça com raiz de carapiá. O rádio de pilha de Edilson não perdia o fio das transmissões.

Ali, todos estavam concentrados na aventura dos astronautas. Alguns olhavam estatelados para o céu, como se buscassem vestígios do acontecimento. Outros, mais animados, sentavam-se e levantavam-se, como se apenas as palavras não lhes bastassem.

Foi quando um deles, muito exaltado, brandiu, como se quisesse pontificar com a sua declaração a opinião final sobre o pouso lunar e, assim, dissipar quaisquer dúvidas de toda a humanidade sobre o fato: “Quá! O homem foi na Lua coisa nenhuma, sinhô. Só se for no céu das cabaças. Se eles pisassem na Lua, ela não aguentaria o peso deles e cairia. A Lua está solta no céu. Ela não aguenta peso nenhum”.

Uma meia dúzia de meninos que brincava, ali por perto, com uns carrinhos e aviõezinhos feitos de buriti pararam para ouvir as reflexões daquele astrônomo santanense. E embarcaram na verdade que ele pontificava como sendo um axioma.

De repente, um menino, desses da pá virada e que vivem com um diabinho batendo latas dentro da cabeça, atirou com o estilingue, sabe-se lá de onde, uma pelota de barro na parte alta da porta da sapataria. Estilhaçada a pelota, o barro esparramou-se sobre os homens. Vencido o susto, caíram na gargalhada. E um deles, jocoso, observou: “Já deve ser o barro da Lua caindo sobre a Terra”. E as gargalhadas multiplicaram-se.

Os meninos atravessaram a rua e foram brincar na calçada do jardim, à sombra duma frondosa amendoeira. E entabularam uma conversa, enquanto um ventinho fazia girar as hélices dos seus aviões de buriti.

– Se a Lua cair, vai ser bem no meio do jardim, né?

– Se cair, aqui no jardim, a gente vai ver os homens que o rádio disse que chegaram à Lua.

A curiosidade da meninada foi ao ponto de um terceiro perguntar o seguinte:

– Se a Lua cair dentro do jardim, cês têm coragem de subir em cima dela? Eu tenho, porque quero ver de perto o dragão de São Jorge. Tenho muita vontade de ver um dragão de perto.

No início da noite, aqueles mesmos homens, agora, cheirando a sabonete recém usado e a brilhantina, transferiam sua prosa para um banco do jardim, de frente para a Igreja do Perpétuo Socorro. Muitos sentavam no meio-fio, pois que o banco não abrigava a todos. E, ali, de papo para o céu, naquela noite fria de junho de 1969, miravam a Lua na busca de ver qualquer coisa que revelasse a presença, ali, dos astronautas e interpretavam a lógica do nosso astrônomo particular que previu a queda do satélite prateado sobre a Terra.

O estouro de alguns rojões e as lenhas ajuntadas, na rua, às portas das casas, faziam lembrar a festa junina que estava chegando e que certamente tiraria a Lua de foco, em Santana dos Brejos.

Escrito por Aloísio Brandão.

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