Aloísio Brandão

“MARGARIDA”, UM ACONTECIMENTO NO RÁDIO DO MEU PAI

Por Aloísio Brandão.

Meu pai ocupara-se, por horas, com aquela função de levar o enorme e todo remendado fio que saía de trás do seu rádio Philips, a válvula, para o quintal. Dizia estar preparando-se para um “grande acontecimento”, à noite. Ao ganhar o quintal, o fio lançava-se por um sabugueiro e voltava ao telhado, de onde descia para enterrar-se num pote cheio de terra, sempre, molhada. Eu, menino, não entendia porque papai metia aquele fio num pote de terra encharcada de água. Perguntei-lhe se estava plantando um pé-de-rádio, ao que ele sorriu.

Em 1965, minha mãe precisou ser operada de uma hérnia. Nossa pequena Santana dos Brejos, no interior da Bahia, era carente de recursos médicos. Restava-lhe Bom Jesus da Lapa, à beira do São Francisco e a 130 quilômetros dali. E, lá, se foram os meus pais. Choro pela casa, abraços, a saudade antecipada. Mas meu irmão, César, e eu tivemos uma compensação: a vinda para nossa casa de Vovó Bela, mãe de nossa mãe.
Veio cuidar de nós, durante a viagem dos meus pais. Adorávamos aquela mulher despachada, gorda, baixinha, carinhosa. Eu achava curioso, quando ela se esgueirava entre as plantas do quintal, para pitar o seu cigarro de palha no breu da noite. Achava que os netos não deviam vê-la fumar. Depois, esparramava-se na cama e nos abrigava sob os seus braços. O resto era a ternura e o silêncio.
Dias depois, mamãe e papai estavam de volta de Bom Jesus da Lapa. Ela, operada, feliz. Trouxeram presentes e um monte de histórias da viagem. Mas uma delas deixou-me prenhe de curiosidades. Mamãe contava sobre um certo rapaz, ainda, adolescente que passava horas, no hospital onde fora operada, cantando e tocando violão com o técnico em laboratório daquele estabelecimento de saúde. “E isso é lugar pra se ficar cantando e tocando violão, sinhô?”, perguntava a minha mãe.
Lembrava-se de que o moço usava um chapéu de couro em que estava escrito “Margarida”. Eu tinha seis anos e ficava maravilhado, transformado, quando ouvia histórias sobre músicos e músicas.

Bem, dois anos depois, chegou o dia do tal “grande acontecimento”. Era fim de tarde de outubro de 1967, e eu acompanhava, atentamente, papai no preparo do seu rádio. Deu-lhe novas pilhas (os “elementos”, como se dizia naquele tempo, por aquele sertão de meu Deus), e me chamou para dizer: “Meu filho, aquele moço que tocava violão e cantava, no hospital, em Bom Jesus da Lapa, vai cantar, hoje à noite, num festival, no Rio de Janeiro, onde só tem gente valiosa. Você vai ouvi-lo cantar. Não pode perder esse grande acontecimento”.

E veio a noite. Vaga-lumes zanzavam entre as plantas e estrelas pipocavam no céu que cobria o nosso quintal de casa sertaneja. As candeias estavam apostos. Papai trouxe a minha cadeirinha Curitiba para perto de si e me puxou – e também a meu irmão – para que ficasse ao seu lado. As horas diluíram-se na vaga da espera. E eis que o acontecimento explode. “É, agora, meu filho. Ouça. Isto é uma coisa especial de que você não vai se esquecer, nunca mais”, disse, ao ouvir o apresentador do II Festival Internacional da Canção (FIC), Hilton Gomes, anunciar o nome do moço que ele estava aguardando. Na cabeça do meu pai, era como se todo o Rio São Francisco cantasse junto; como se o sertão rumasse a remo para o Rio de Janeiro, para compartilhar a força daquele momento.
E a música brotou de mansinho no velho rádio. Tão bonita! Impressionei-me com aquela melodia maviosa, com a voz tímida e emocionada do cantor-compositor pós-adolescente acompanhando-se pelo Grupo Manifesto cujo contrabaixo acústico pontuava notas pela nossa sala. Tudo meio difuso em meio à barulheira da torcida que lotava o Maracanãzinho, no Rio, e das próprias interferências na transmissão pelo rádio. Meu coração brejeiro de menino não conseguia sorver aquela quantidade tamanha de emoções. Mas a melodia daquela música ficou plantada em minha cabeça, para sempre.
Quando o apresentador anunciou o resultado do Festival, destacando o nome de Gutemberg Guarabyra como o seu vencedor, vi o meu pai engolir a seco a sua emoção e enfiar o dedo sob os óculos para espalhar no rosto a lágrima que irrompia dos seus olhos. E comemoramos, ali, a vitória de um sertanejo igual a nós cantando sua belíssima “Margarida”, no velho Phillips do meu pai, enfrentando nomes como Chico Buarque (“Carolina”) e Milton Nascimento (“Travessia”, “Maria, paixão e fé” e “Morro Velho”) e outros que viriam a ser grandes nomes da MPB.
Dez anos mais tarde, eu conheci Guarabyra (e seu parceiro Sá), em Correntina (BA). Ficamos amigos. Eles estavam compondo as músicas do LP (foi remixado e lançado em CD) “Pirão de Peixe com Pimenta”. Desse disco, as faixas “Sobradinho” e “Espanhola” viraram sucesso estrondosos. Naquela noite do acontecimento no velho rádio Philips, Bom Jesus da Lapa não poupou fogos de artifício. O Festival Internacional da Canção era, de fato, um grande acontecimento. Meu pai estava certo.
Escrito por Aloísio Brandão.

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