Aloísio Brandão

AS LAPINHAS

Escrito por Aloísio Brandão.

O carro de boi de Mané Oco mal acabara de parar em frente à casa de D. Maroca de Zé Isca, perto da Igreja do Perpétuo Socorro, e uma meninada (eu no meio) saltitante, curiosa e feliz acumulara-se sobre a calçada, atraída pelo sinal de que, ali, iniciava-se um acontecimento, naquela cidadezinha tão vazia de acontecimentos. O carro de boi estava abarrotado de areia molhada. Por onde passou (a Rua das Pedras, o Beco do Velho Miguel do Carmo e a Praça da Bandeira) deixou um rastro de água que vazou por entre as suas tábuas toscas, como se o riacho de onde a areia fora colhida pretendesse visitar as ruas da pequena cidade. Os pobres bois de Mané Oco bufavam ao peso da carga pesada. Era o começo dos preparativos para a arrumação das lapinhas, os enormes presépios que tomavam as salas das casas de Santana dos Brejos (SB), no sertão da Bahia, as quais o tempo soterrou nas valas do esquecimento. Era o Natal anunciando-se no seu jeito mais brejeiro, singelo e longe da gastança de hoje em dia, azeitada pelo marketing natalino que movimenta a lógica do interesse econômico e paralisa a ternura e a simplicidade que nutriam esse período, em Santana dos Brejos. Era uma alegria diferente e funda que vinha e se amoldava na fôrma da alma dos pacatos santanenses. Era um dos acontecimentos mais importante de cada um daqueles anos.

A areia molhada seria toda peneirada e espalhada na sala para secar. Meninos num frenesi desmedido acompanhavam a lida. As donas de casa lançavam-se no fervoroso trabalho de produção de suas lapinhas, sempre, em família. Uma vez seca e peneirada, a areia alvinha era cuidadosamente posta sobre a sala como se as mãos daquelas mulheres bordassem uma delicada renda. Jornais velhos recebiam camadas de cola de tapioca sobre a qual eram espalhadas cinzas e carvão em pó extraídos dos fogões e fornos a lenha. Em seguida, os jornais, já tratados, ganhavam formas de pedras que, sobrepostas, viravam morros e, neles, a gruta onde a manjedoura recebia a estrela maior de todo aquele esforço de dias: o Menino Jesus.

Ao seu lado, Maria, a mulher virgem e santa que lhe dera à luz, e o seu pai, José. Ambos deixaram Nazaré e estavam a caminho de Belém, terra do carpinteiro, para fazer o recenseamento obrigatório determinado por César Augusto. A pobre mulher, grávida e já perto de por no mundo o seu rebento, fruto de um plano do Criador, rompeu os mais de cem quilômetros num jumento, e o homem a quem ela fora prometida, mas que não a conhecia na intimidade conjugal, ia a pé. A representação de toda esta história estava nas singelas lapinhas santanenses.

Nesses presépios, em toda a extensão da areia, miniaturas de jumentos, cachorros, gatos, cavalos, bois, vacas, bezerros e quaisquer outros bichos que caíssem nas mãos das donas das casas eram colocados sobre a areia, todos eles andando em direção à manjedoura onde o Filho de Deus era adorado pelos Reis Magos Belchior, Baltazar e Gaspar e de quem recebeu ouro, incenso e mirra. A estrela que conduziu os três, feita em papelão e pintada em tinta a óleo prateada, reluzia sobre o morro de pedras que a mão humana obrara nas salas das casas da pequena cidade, a partir de jornais velhos pintados com cinza e pó de carvão.

A criatividade das senhoras e suas filhas prendadas faziam a diferença nas lapinhas. Havia, por exemplo, quem plantasse arroz sobre a areia ainda molhada para que, iniciado o período de visitação das pessoas, no dia 16 de dezembro, o arroz já estivesse brotado, fazendo da sala uma bela relva por onde andavam os animais que, segundo a imaginação, também iam em direção ao Rei dos Judeus e de onde voltariam, em 6 de janeiro, Dia de Santo Reis, quando as lapinhas eram desarmadas.

A meninada serelepe não desgrudava os olhos da manjedoura e de tudo o que compunha as lapinhas. Em algumas casas, as senhoras acabavam de receber a grande novidade que atrairiam os visitantes: o pisca-pisca.
Mamãe vencia a timidez e, mãos dadas comigo e meu irmão, César, saía para visitar as lapinhas. Vestíamos as melhores roupas, todas feitas por ela mesma; recebíamos, no rosto e atrás das orelhas, uma unção de alfazema, dos poucos perfumes que se encontravam nas lojas da cidade, e uma leve aplicação de brilhantina Glostora aprumava nossos cabelos de pastinha. Minha mãe, ela própria, perfuma-se discretamente com um certo Madeira de Oriente. Lembro-me bem da caixa em amarelo-ouro com letras vermelhas de estilo oriental onde se lia “Maderas de Oriente”. Abaixo, o nome do fabricante: Myrurgia. Acima, um desenho mouro.

Devidamente vestidos, saíamos para o belo e simples acontecimento da cidade, no fim do ano, nos anos 60 e início dos anos 70, que era visitar as lapinhas. Ir com a mãe aos presépios era uma doce formalidade. Vez em quando, papai ia conosco. Formávamos, então, um cordão humano, com nós quatro, de mãos dadas, tomando as calçadas.

As lapinhas eram o acontecimento maior daquela Santana miúda e isolada do mundo, no fim do ano. Salvador, a quase mil quilômetros de minha cidade, àquele tempo, devido à ausência de estradas, era um lugar impensável. A distância, amplificada pela falta de acesso, não deixava que se estabelecesse qualquer possível elo entre as duas cidades, gerando – isto, sim – um assombroso fosso cultural, social e econômico entre ambas. E Brasília (a capital do País está a 670 quilômetros de SB) era, então, apenas uma parda ideia, um tema, ainda, não recorrente nas prosas que varavam as horas, nas esquinas e bares santanenses.

De sorte que visitar as lapinhas, naquelas tardes ternas e etéreas, abastecia a alma de um tipo de alimento que servia para o resto do ano e punha a cidade em movimento. Quando voltávamos para casa, meu irmão e eu tínhamos assunto para as conversas que rompiam as horas, até o sono nos por na cama.

Assim que visitávamos a última lapinha – a da casa de D. Amélia de Seu Odilon Paulo -, mamãe queria um pouco de pressa para que chegássemos em casa com uma réstia de sol que fosse para, assim, não termos que enfrentar a escuridão que devorava a cidade sem luz elétrica. Tempos depois, com a chegada da energia a motor que funcionava até as oito da noite, as luzes fraquinhas nos faziam andam como que apalpando o chão, com cuidado, para escapar dos buracos escondidos pelo lusco-fusco das lâmpadas.

E eu nem sabia que as luzes fraquinhas e os pisca-piscas acanhados de Santana dos Brejos brilhavam mais que as imponentes luzes natalinas de Paris.

Escrito por Aloísio Brandão.
 

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