Aloísio Brandão

Eternamente, onça

Por Aloísio Brandão.

▪ Aos meus amigos Álvaro Russo Kassab e Celso Adolfo, que incorporaram onças na alma e ficaram oncificados na grandeza de suas sensibilidades.

A nesga de sol que rebentou, na manhã daquela segunda-feira de dezembro de 1965, foi o fato mais alvissareiro daquelas águas. Enfim, uma trégua na chuvarada. Velhos muros de adobe derretiam-se, no chão, como torrões de açúcar; calçadas cobertas de um lodo esverdeado estavam escorregadias, roupas úmidas não secavam, pente algum fazia descer os desgrenhados cabelos carapinhas, as lenhas não davam fogo e havia pouca gente nas ruas. Assim, encontrava-se Santana dos Brejos, no sertão da Bahia, com a longa invernada. A sorte foi que o riacho não botou uma daquelas cheias que inundam as ruas de baixo, porque, embora contínua, a chuva era mansa, das fininhas. Os homens que se reuniam diariamente na esquina da sapataria de Edilson Martins (eles eram os peritos do serviço de meteorologia da cidade) pontificaram: a chuva parou.

Meu pai, em pé no batente da porta da sapataria, não tirava os olhos do céu, festejando, mas ainda meio desconfiado, aquele sol miúdo que brotara, depois de mais de 20 dias de chuva ininterrupta. “Benedito, por esses dez dias, não chove mais. Pode viajar tranquilo”, garantiu Doão, após tragar uma dose de Jurubeba Leão do Norte, convicto do estio e respaldado por Zé Cebola e João Abóbora, este último compadre do meu pai. Os homens ajuntavam-se, ali, antes do almoço e aos fins da tarde, para jogar gamão, tirar uma prosa boa e beber cachaça com carapiá, umburaninha de rama e outras raízes, cascas, sementes e folhas preparadas pelo próprio Edilson Martins, uma dessas criaturas agregadoras que os sertões mais longínquos ainda produzem.

Meu pai, Seu Bené, estava impaciente com a chuva prolongada. Precisava percorrer a cavalo – como fazia, todo mês – o trecho de uns 40 quilômetros, entre Santana dos Brejos e o povoado de Porto Novo, para desbastar o mato que crescia rapidamente em volta do fio do telégrafo. Não fosse contido, logo, iria interferir na transmissão das mensagens telegráficas entre os dois lugares. Hoje, a telegrafia, por satélite, está imune aos galhos das plantas.

Aprumou os óculos de fundo de garrafa, espichou o olhar por toda a abóboda do céu, e bateu o martelo: “Vou, amanhã”. Minha mãe, Maria – D. Nenzinha, como a chamavam –, acordou, no escuro, na terça-feira, para arrumar os mantimentos para a viagem. E de sua garganta vinha um canto mavioso e afinado, enquanto cuidava de acondicionar numa lata o pó de café torrado e moído, em casa mesmo; o frito (a carne de sol frita), a paçoca de carne seca e farinha socadas no pilão, o feijão cozido com carne gorda; a rapadura para a sobremesa e para adoçar o café; a água na cabaça. O arroz era cru, para ser feito, na viagem.

O dia sequer esparramara seus primeiros lilases, quando os homens que trabalhavam com meu pai nessas empreitadas foram chegando. Eram eles Anísio Garapa, Tião Zambeta e Arnaldo Preto que, tempos depois, quando comprou um caminhão, passou a ser chamado de Arnaldo Motorista. Outro que integrava o grupo – mas não daquela vez – era Luiz de Biô, sobre quem já escrevi uma crônica.

Os três cabras chegaram com seus cavalos e seus burros. Anísio passara, antes, no Buraco D’Onça, para apanhar Papaléguas, o cavalo do meu pai. O beco onde ficava a nossa casa, vizinha à sapataria de Edilson Martins, era uma animação só. Conversas paralelas, um ir-e-vir dos homens, as caixas de ferramentas arrumadas nos burros de carga, os mantimentos nos alforjes. Meu pai conferia a sua capa colonial de cor cinza-escura dobrada e amarrada na garupa de Papa-léguas.

Tudo pronto. Papai beijou mamãe. Eu e meu irmão, que acabáramos de acordar, pedimos-lhe a bênção, beijando a sua mão, ao que ele respondeu a cada um, dizendo: “Deus lhe faça feliz”. Até o último dia de sua vida, em 06 de setembro de 2012, já com cem anos de idade (estava lúcido e íntegro, fisicamente), pedíamos-lhe a bênção, beijando a sua mão direita. E ele repetia invariavelmente as mesmas palavras. De Brasília, onde moro, a bênção vinha por telefone.

E se inicia a partida em meio ao vozerio dos homens. Anísio trazia dois cachorros: Pimenta e Leão. Saíram pela Praça da Bandeira, passando em frente à Igreja de Perpétuo Socorro e tomaram a Rua da Boa Viagem até alcançarem uma vereda para os lados do Sítio dos Brandão. Pegaram a estrada da Gameleira e passaram para a estradinha dos Pausinhos. A viagem era lenta. A cada trecho, paravam para desgalhar as árvores que estavam se aproximando do fio do telégrafo. Anísio cuidava desse serviço. Muitas vezes, era necessário trocar pedaços de fios, substituir equipamentos. Era, aí, que entrava a perícia de Tião Zambeta, mas sempre sob os olhares atentos e a supervisão do Velho Bené.

Foram dormir, na Gameleira, pois que as paradas para os reparos foram muitas. Ao amanhecer do dia seguinte, tocaram em frente. O almoço, às 11 horas, foi no Mosondó. Anísio fez o fogo e Arnaldo aproveitou a parada para dar água aos cavalos e aos cachorros num barreiro perto dali. Mas Arnaldo voltou assombrado. “Seu Benedito, eu vi uma onça do outro lado do barreiro. Era uma suçuarana. E das grandes. Pelo jeito, tava com cria nova. Ela me espiou dum jeito esquisito e botou os olhos nos cachorros. Fiquei com medo de ela dar a volta e me pegar de costas”, narrou. Meu pai ouviu a conversa e tratou de arrancar o medo de Arnaldo. “Deixa a pobre da onça pra lá, Arnaldo”, tranquilizou-o.

Sei que o sol quente já sinalizava coisa de umas quatro da tarde do dia seguinte, quando os seus animais botaram os pés, em Porto Novo. Os homens estavam esgotados, sujos. Mas o ceu estrelado e as valsas e sambas que a “Nacional do Rio de Janeiro” punha no aparelho de rádio da modesta pensão suavizaram a noite. E os quatro dormiram em paz.

A volta foi alegre. Já chegando ao Mozondó, meu pai viu, longe, um homem que trazia sobre os ombros um animal escangotado. “Aquele matou um veado, Tião”, anunciou Seu Bené. Ao se aproximarem foi que o meu viram tratar-se de um cachorro. E o homem, triste e meio choroso, contou sobre a valentia do seu bicho, ao partir para cima da onça, à beira do mesmo barreiro do qual se aproximou Arnaldo Preto. “Seu Benedito, cachorro valente tá aqui. Mas a onça é muito mais. Piaba avançou pra cima dela, mas a onça nem se mexeu direito. Deu só um patada, e olha o estado do bichim”. A suçuarana acertara-lhe as unhas de navalha, que entraram fundo na barriga do cão, seguida de uma abocanhada. O homem tinha esperança de ressuscitar Piaba, mas a morte já o tinha levado, havia muitos minutos.

Semanas depois, eu vi homens alvoroçados correndo em direção a uma velha picape Toyota que acabara de parar no Beco de Teté, em Santana dos Brejos. Aproximei-me. Os homens cercaram o carro e quase não me deixaram ver o que havia ali dentro. Mas ouvi claramente o vozerio repetir a palavra “onça”. Aos poucos, consegui abrir espaço sob os braços suarentos daqueles senhores e, aí, sim, confirmei o motivo de todo aquela excitação e festejamento: uma onça suçuarana morta. Adulta enorme, fêmea, ocupava toda a carroceria da picape.

O matador, um covarde desclassificado que ostentava um dente de ouro e fedia a suor e cachaça, era o dono do carro. Exibia a sua valentia fuleira e irracional em cima da indefesa suçuarana. Tremi o meu tremor de menino, quando vi aquela humilhação em carne e sangue jogada nos fundos do carro. Nem parecia, ali, a dona soberana daquelas matas. Só mesmo um animal traiçoeiro e portando arma de fogo como o homem poderia tirar-lhe a vida.

O truculento, apoiando os polegares na fivela do cinto em pose de heroi, bradou, para o assombro dos que o cercavam: “Esta, aqui, não bebe mais água no barreiro do Mozondó. Nem ela, nem os filhotes dela”. Um misto de tristeza e ódio acelerou meu coração. Mas aquela brutalidade e pusilanimidade não foram capazes de matar a lenda mais palpitante e bela e o tema mais recorrente das prosas, no sertão baiano de minha infância: a onça. Eternamente, onça!

Por Aloísio Brandão,
Jornalista, escritor, compositor.

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