Zumbilândia

 

craco

cracolândia

cracolandia

por Vinicius Souza e Maria Eugênia Sá

Zumbilândia, São Paulo, janeiro de 2012

Apesar do verão alto, o dia estava frio e cinza, ameaçando já a forte chuva que cairia em poucas horas. Talvez o frio estivesse na alma. Nas imediações da Rua Helvétia, no Centro de São Paulo, movimentos sociais preparavam uma manifestação a favor de tratamento digno aos usuários de drogas depois da desastrada ação dos governos estadual e municipal para destruir a chamada Cracolândia.

Em meio ao esplendor decadente de edifícios centenários, alguns parcialmente destruídos pelo poder público para evitar a ocupação pelos viciados, ratos corriam por destroços, roupas imundas, restos de colchões, lembranças de lares distantes e mensagens desesperadas por auxílio divino ou terreno. Na rua, o cheiro do churrasco oferecido à população. Dezenas de ativistas e jornalistas andavam pela primeira vez em segurança pela região e policiais nas esquinas apenas observavam.

De repente, surge a procissão de crackeiros, exatamente como num filme de terror. Zumbilândia! Olhares perdidos, andar vago, tiques nervosos, paranóia à flor da pele para quem quisesse ver. Rostos sofridos por muitas desilusões, doença mental, abandono, um pouco de tudo. A maioria parecia ser do bem. Outros grupos, menores, usavam como tática de limitação fazer com que os manifestantes não tivessem acesso total aos mocós. Empunhados de pedras, ficavam nos cantos olhando o movimento e temendo algo que só estava em suas cabeças.

Voltamos para casa destruídos. Quando ouço a palavra crack, o que vêm a mente é aquela imagem em especial, das pessoas agrupadas parecendo zumbis. Desprotegidos,  desamparados. Passado um ano, a Operação Cracolândia revela-se em todo o seu fracasso. Hora do governo desviar a atenção pública da crise de segurança com uma nova iniciativa polêmica nas manchetes: a internação compulsória. Afinal, quem se preocupa, na real, com a sorte e o futuro dessas centenas de homens, mulheres e crianças pobres, verdadeiros mortos-vivos que insistem em ficar numa área que poderia dar altos lucros à especulação imobiliária?

Vejam também slideshow em

http://www.youtube.com/watch?v=lMMx-DRGagQ&feature=youtu.be

http://www.mediaquatro.com

7 Responses para “Zumbilândia”

  1. clea
    22/01/2013 at 21:52 #

    Muito bom ler os comentários à matéria de de Eugênia e Vinicius. Gostei muito do trabalho e e, como Jucy, me angustio com a triste situação que vocês retrataram.

  2. Denise
    22/01/2013 at 21:31 #

    Vocês são mesmo demais! Conseguem inclusive dar um tom poético a esse resultado da falta de vontade política de transformar o combate às drogas, de fato, em política de esclarecimento e tratamento a quem precisa – e evitar essa miséria que transforma dia a dia a vida de inúmeras pessoas.

  3. hugo stacciarini
    22/01/2013 at 18:35 #

    ainda bem que temos pessoas como vocês. obrigado por existirem. parabéns pelo trabalho. maravilhoso!

  4. Jonathan
    22/01/2013 at 17:37 #

    Quando eu era criança passava todo fim de semana passava na região da Luz acompanhado da minha mãe. Eu ficava olhando e admirando aquele lugar, pela inocência de uma criança, suas formas, construções e gente muita gente! E de todas as formas. Não entendia como existia tal nível de degradação do ser humano. Lembro que um dia, puxei minha mãe pela borda de sua saia e disse chorando, “mãe, estou triste por eles ali. Faça alguma coisa…”. Ela apenas me pegou no colo e disse que um dia tudo aquilo iria melhorar.
    Hoje eu entendo muita coisa. Entendo mais do que gostaria de saber até. Hoje eu entendo o silêncio de minha mãe. Hoje eu vejo ainda pessoas vivendo em um submundo com uma subvida. Hoje ainda continua triste ao ver a Luz.

  5. Chico Reis
    21/01/2013 at 18:26 #

    Muito bom, muito bom menos.
    Mas para quem já viu fantasmas na Polônia, esses zumbis não devem assustar. Muito bom mesmo. Texto e foto. Parabéns. Pena que as otoridades não leiam isso. Mas um dia . . . . . . . .

  6. juci
    19/01/2013 at 18:50 #

    Fico triste e chocada com essas imagens. Como um ser pensante chega a um estagio tão decadente? Não acho que seja só a pobreza, pois existem tantos pobres dignos. Não é só a falta de educação também, poisjá conheci muitas pessoas que nãos sabiam escrever o nome e não partiram por esse caminho.Na minha pobre opinião, acho que a curiosidade, rebeldia, solidão,uma certa prepotencia e a falta de Deus é que leva por esse caminho tão desrtuidor. Penso que essas pessoas necessitam urgentemente de uma porta aberta, para que voluntariamente, elas pudessem ver uma luz no fundo do coração. Sentir que são amadas e que podem dar a volta por cima. Que elas possam sentir o presente de Deus que é a vida,dadaa nós para que pudessemos viver em harmonia com Ele.

  7. vinicius
    19/01/2013 at 16:37 #

    pessoal, tivemos um problema no video do YouTube. O link correto eh http://www.youtube.com/watch?v=lMMx-DRGagQ&feature=youtu.be abs V