Roger Ballen – Imagens de um mundo caótico

A fotografia, como toda boa arte, é melhor quando incomoda e não quando entretém. O artista não pode ter medo da polêmica, nem se ater ao que é considerado o “politicamente correto”. O que, claro, não significa carta branca para degradar os oprimidos ou mascarar a realidade. Num momento de derrocada do Apartheid na África do Sul, mostrar que também havia miseráveis entre os privilegiados pelo sistema racista é um ato de coragem, é um ato de arte. E foi isso que projetou mundialmente Roger Ballen, com sua série Platteland (http://www.rogerballen.com/platteland/), de 1994, mesmo ano da eleição do líder Nelson Mandela.



Em Platteland, Ballen mostra comunidades brancas pobres no interior da África do Sul, para onde o norte americano se mudou na década de 1970, abandonando Nova York e sua profissão de geólogo para trabalhar de forma autodidata com fotografia em Johannesburgo. Sem dúvida, a série irritou profundamente alguns setores ainda ligados ao Apartheid. Tanto que Ballen foi preso por denunciar essa triste realidade. Ele, contudo, não desanimou, ao contrário, isso o impulsionou ainda mais para criar e buscar, através de uma maneira muito particular, retratar a vida e o meio que o cercavam.

As suas séries penetram a fundo a condição humana, sem concessões de ordem estética ou sentimental. O preto e o branco das imagens de Ballen lhes conferem uma aspereza peculiar muito distinta, com a sutileza tonal da fotografia clássica. No início, a fotografia de Ballen era de rua, sem temática definida. Depois, ele passa a sensação de buscar um trabalho autoral vagando entre o intuitivo e o documental. Casas típicas da área rural da África do Sul, pessoas fora do padrão comercial de beleza, ocorpo, a natureza, a cultura, a barbárie, a loucura e a animalidade são apenas alguns dos temas pelos quais Ballen nos conduz através de uma jornada atemporal e paradoxalmente contemporânea. Suas novas séries, aliás, flertam com as vanguardas, o hip hop, o teatro, o vídeo e as mídias sociais.

Ballen conta que seu objetivo em tirar fotografias ao longo dos últimos anos, tem sido de certa forma o reflexo de si mesmo, e de tudo que aconteceu a partir de uma jornada psicológica e existencial. Suas fotografias estão cada vez mais abstratas e distantes das pessoas. No entanto, nos inserimos nesse universo e conseguimos sentir a proposta aqui. Não existe belo, nem feio, existe o existir: a essência. Isso, talvez, seja o melhor que Ballen possa nos mostrar.

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