Reminiscências de Terezin

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por Vinicius Souza e Maria Eugênia Sá

 

Na República Tcheca estávamos em três, na companhia da uma queridíssima amiga fotógrafa Christy Speakman. Ela fazendo um curso de fotografia na Universidade em Praga e nós “turistando”. Acabamos nesse meio tempo descobrindo também um curso de fotografia documental que ia ser dado numa antiga cidade fortificada transformada em gueto judeu durante a Segunda Guerra Mundial e que logo depois se tornou campo de concentração para pessoas de origem alemã: Terezin. O lugar era meio sinistro, com poucos prédios históricos, dezenas de casas abandonadas há décadas e imensas instalações militares sem uso cercado por altos muros triplos formando uma gigantesca estrela. A cidade de Terezin oferece  poucas coisas para se fazer. Apenas caminhadas pelos bucólicos bosques ao redor, alguns poucos restaurantes e centenas de monumentos lembrando o holocausto.

Tudo isso era motivo de peregrinação de sobreviventes, familiares e estudiosos. Um exemplo é que apesar de não ter sido um campo de extermínio, mais de cinco mil judeus morreram na cidade e cinzas de boa parte deles foram jogadas num rio que passava ao largo. Não sabíamos disso quando resolvemos dar uns mergulhos num lindo dia de sol. Visitantes revoltados começaram a gritar conosco ordenando que saíssemos da água, coisa que fizemos prontamente. Eles ignoraram nossos pedidos de desculpas, viraram as costas e saíram andando, sem olhar para trás. Felizmente não entendemos a língua que falavam…

Terezin mantém uma minúscula população fixa e arredia, que muitas vezes se escondia por trás das janelas quando passávamos pelas casas e apartamentos habitados. Nas residências abandonadas, víamos que quem dali saiu foi com pressa deixando para trás móveis, roupas, uma vida inteira. Na única casa em que um morador concordou em nos receber, os pertences e roupas de sua mãe morta há muitos anos permaneciam intocados no quarto, como se ele esperasse seu retorno a qualquer momento. Na estante, um exemplar do livro Minha Luta, de Adolf Hitler. No porão e no sótão, vestígios das várias famílias judias que ocuparam a casa durante a Guerra, quando todos os não-judeus foram evacuados para a criação do gueto. Já no quintal, muitas plantas medicinais como beladona, sálvia e até maconha.

As aulas de fotografia documental com o professor Viktor Kolar foram preciosas. Sem ele e o poeta-fotógrafo Janek jamais teríamos conseguido entrevistar alguns moradores locais. De qualquer forma, tínhamos que captar imagens além das palavras, com nossas antigas câmeras analógicas, pois a comunicação era muito difícil. Por 15 dias dividimos a hospedagem num quartel abandonado com quase cem artistas (fotógrafos, cineastas e sopradores de vidro) vindos de todo o leste europeu, sem falar nos milhares de fantasmas (mas essa é uma outra história…).

Trabalhávamos nos revezando no laboratório,  revelando e ampliando nossos próprios filmes para uma exposição que estava na programação. E no final, fizemos uma grande fogueira, compramos muita cerveja e vinho e assamos um porco inteiro sob a luz das estrelas. Sentados em tocos de madeira, falamos inglês, ouvíamos tcheco, alemão, russo e por incrível que parece todos se entendiam muito bem. Comemoramos brindando essa amizade.

Foi mágico! E, como brasileiros, recebemos de todos grande carinho e contatos que temos até hoje. O inesperado nos pegou nessa viagem e vimos, através da história de sofrimento e dor do lugar, que o homem nada mais é do que um ser que necessita estar em conjunto para criar algo maior. Talvez, se na metade do século passado houvesse esse sentimento entre as nacionalidades que experimentamos em Terezin, a cidade hoje teria uma história bem menos pesada e os fantasmas que por lá habitam se rendessem, enfim, ao descanso em paz.

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