Kevin Carter – O fotógrafo do “periquito”

Poucas fotos marcaram tanto o fotojornalismo do final do século XX quanto a imagem de um abutre que parece esperar a morte de uma criança famélica perto de um centro de distribuição de comida no Sudão. A foto correu o mundo ao ser publicada na capa do The New York Times e venceu o Prêmio Pulitzer de 1994. Seu autor era o mais desencanado, delicado, sensível e problemático dos quatro amigos que compunham o Clube do Bangue Bangue: Kevin Carter.

Ele começou sua carreira como fotojornalista esportivo, mas logo passou a cobrir conflitos, após os ataques de Chuch Street, em Pretória, capital da África do Sul, em 1983. Carter teria sido primeiro a registrar uma execução pública chamada de necklacing (quando os assassinos colocam fogo em um pneu encharcado de gasolina no pescoço da vítima), prática comum naquela época. No Brasil, uma técnica semelhante, mas com mais pneus, é chamada de “micro ondas” e teria sido usada, por exemplo, para matar o jornalista Tim Lopes no Rio de Janeiro em 2002.

A violência dos conflitos sul-africanos nos anos 1980 e 1990 (mais de 14 mil negros morreram nesse período) e a fome extrema no continente afetaram Kevin Carter mais do que seus companheiros. Usuário de drogas pesadas há anos, ele intensificou o vício após a morte trágica do amigo Ken Oosterbrock. Com as cobranças sobre o destino da menina sudanesa que lhe trouxe fama internacional, Carter não suportou mais e se matou aos 33 anos. Ele tinha medo de não conseguir superar a qualidade da “foto do periquito”, como os amigos apelidaram a imagem-símbolo da fome na África, e jamais conseguiu dar a mais simples resposta de todas: a aparente proximidade entre a criança e o abutre é uma ilusão de ótica proporcionada pela lente teleobjetiva. Apesar do pouco tempo atuando como fotojornalista deixou um legado fotográfico de valor imensurável.

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Uma opinião para “Kevin Carter – O fotógrafo do “periquito””

  1. Cléa Sá
    Cléa Sá
    23/08/2013 at 18:28 #

    Que fotos chocantes, Eugênia. Retratam a realidade, infelizmente.