Caxemira, no olho do furacão

Vinicius Souza e Maria Eugênia Sá
Ao chegarmos na Índia, em Nova Delhi, com a ideia de continuarmos e aprofundarmos o documentário que fazíamos na época sobre a hanseníase, jamais imaginaríamos que  sequer seríamos recebidos pela entidade parceira a qual representávamos aqui no Brasil, a ALM (American Leprosy Mission). A Índia praticamente não aceita entidades estrangeiras, apenas parcerias. Com a porta na cara, caímos nas mãos de uma das únicas instituições internacionais no país, a Cruz Vermelha. Lá o responsável pela delegação, um polonês que fumava como uma chaminé, nos questinou, já que havíamos perdido o fio da meada , porque não falar sobre a Caxemira e seus enfrentamentos políticos? Não tivemos dúvida: era a única saída para não perdermos a viagem! Pegamos o primeiro avião e fomos para aquela que seria uma das maiores aventuras de nossas vidas e que igualmente poderia ter se tornado um dos maiores pesadelos.

Cheios de documentos, câmeras, filmes e munidos de contatos perigosos na região, logo ao desembarcarmos nos deparamos com o exército indiano no aeroporto. Tentamos conseguir um taxi para sair de lá rapidamente, mas, sem reserva de hotel, atraímos ainda mais a atenção da tropa. Foram mais de 40 minutos  de interrogratório sobre nossas intenções no território dividido e ocupado militarmente por Índia, China e Paquistão. Falamos que estávamos em lua de mel e mostramos uma reportagem numa revista indiana com as maravilhas de Srinagar. Enquanto mentíamos para o capitão, uma a uma as malas eram abertas e cuidadosamente revistadas. Graças ao bom pai não chegaram a abrir a última mochila, onde concentramos as “evidências”. Um outro oficial, vendo a camisa da seleção brasileira, disse ao capitão: “libera logo eles, são brasileiros, como samba, futebol, Pelé, Ronaldo, Maradona…”

O capitão do exército nos colocou em uma houseboat (um quarto de hotel flutuando no Lago Dal) de um conhecido seu. Nem precisou dizer que estaríamos sendo vigiados todo o tempo, o que não evitou que fugíssemos para entrevistar jornalistas, ativistas, mesquitas, sanatórios, cemitérios e, claro, o vilarejo com seus lindos parques e tristes histórias. Compramos até um pacote turístico para uma estação de esqui, onde pagamos o guia para nos deixar sozinhos e podermos enterrar na neve centenas de relatos de violações de direitos humanos que recebemos de um dos principais lídereres separatistas, Syed Ali Geelani, em prisão domiciliar desde 1985.

Voltamos a Delhi de carro. Não ousaríamos encarar o capitão novamente depois de tantas aventuras na Caxemira. Afinal, alguém teria de contar essas e outras aqui…

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5 Responses para “Caxemira, no olho do furacão”

  1. Thais Nozue
    10/12/2012 at 16:08 #

    Tive o prazer de ouvir essa história do próprio Vinícius. Fato este que culminou na minha profunda admiração e apreço por vocês!
    Beijos!

  2. Luciana Del Pezzo
    10/12/2012 at 14:56 #

    Queridos, esse episódio remonta o dia em que os conheci, recém chegados da Caxemira, roupas brancas e a típica meia-boina, algo como um quipá, na cabeça, cheios de histórias emocionantes para contar. Aquilo me afigurou tão impressionante, dada a situação local, que não tive dúvidas, já na época, estar diante de pessoas diferenciadas da média da minha convivência. Agora, lendo os pormenores da aventura, tenho uma pequena dimensão de quão distante eu estava, da real dimensão dos “malucos”, capazes e corajosos profissionais, que viriam a ser meus dois grandes amigos. Parabéns, pelo texto, pelas imagens, pelo foco dado à carreira!

  3. vinicius
    09/12/2012 at 13:38 #

    puxa, que chato Clea, mas isso acontece, nao se preocupe.
    no face tah bombando rssrrs
    bjs
    V

  4. Cléa Sá
    Cléa Sá
    09/12/2012 at 12:08 #

    Uma explicação: essa matéria recebeu uma série de comentários interessantes que, inadvertidamente, mandei para o espaço. Peço que os que comentaram o façam novamente para que Vinicius e Maria Eugênia possam tomar conhecimento. Desculpem!