Basetrack Project – popularização para mobilização ou a velha glamourização da fotografia de guerra?

Vinicius Souza e Maria Eugênia Sá


Tim Page, famoso fotógrafo da Guerra da Vietnã (ferido por uma mina terrestre naquele conflito e que nos deu a honra de escrever o prefácio do livro América Minada – http://www.outraspalavras.net/outroslivros/loja/america-minada/) é citado no recente livro Bending the Frame, do editor de fotografia e professor da Universidade de Nova York Fred Ritchin, referindo-se à possibilidade de criação de imagens que levem ao fim da glamourização da fotografia de guerra e do próprio conflito. Para Page, “Tirar o glamour da guerra? Como diabos você consegue fazer isso? Não se pode tirar o glamour de um tanque queimando ou de um helicóptero explodindo. É como tentar tirar o glamour do sexo”.

De fato, fotos como a do oficial vietnamita matando um suposto Vietcong, feita por Eddie Adams em 1968, ou da menina nua queimada por Napalm, clicada por Nick Ut em 1972, mudaram a opinião pública sobre uma guerra, levando ao seu fim, mas também estimularam milhares de jovens fotógrafos a sonhar com, e mesmo conseguir, a possibilidade de retratar campanhas bélicas e suas consequências mundo afora. Contudo, as imagens de maior repercussão e impacto de uma das mais recentes guerras dos EUA não foram feitas por fotojornalistas com equipamentos de última geração, mas por soldados com câmeras digitais simples: as terríveis cenas de tortura e desrespeito aos detidos na prisão de Abu Ghraib, no Iraque (sobre essas e outra fotos icônicas de conflitos, veja nosso artigo na revista Discursos Fotográficos, em http://www.uel.br/revistas/uel/index.php/discursosfotograficos/article/view/16145).


Num planeta globalizado em que um diretor da Apple lança o novo modelo do celular da marca afirmando que “agora ninguém mais precisa aprender fotografia”, quase todo mundo tem uma câmera sempre à mão. Aliás, a campanha de promoção do “telefone” em São Paulo não traz uma linha sobre falar com outras pessoas, seja por voz ou internet, apenas imagens feitas com o aparelho. Fotos que raramente são impressas, mas são compartilhadas e curtidas incansavelmente. Não raro essas imagens são editadas em filtros automáticos no próprio aparelho ou nas redes sociais como Facebook, Instagram e Pinterest.


Os filtros mais usados dão às modernas imagens digitais uma “cara” antiga, tornando-as quadradas, com as bordas levemente embaçadas e cores altamente saturadas, como se fossem tiradas em velhas Roleiflex com filmes slide 6×6 da Fuji.

Se as novas gerações se comunicam imageticamente dessa forma, seu uso em contexto de conflito armado teria, por obvio, mais aderência e popularidade, talvez levando mais facilmente a mudanças de rumos em guerras atuais. Afinal, quem lê jornal hoje em dia? Mesmo as fotos de Abu Ghraib foram difundidas muito mais pela rede de TV que as publicou primeiro e pelas redes sociais. Essa é a ideia por trás do projeto Basetrack, que acompanhou o 1º Batalhão da 8ª Divisão dos Fuzileiros Navais Americanos durante sua missão de um ano no Afeganistão, entre 2010 e 2011, cinco fotógrafos (Teru Kuwayama, Balazs Gardi, Tivadar Domaniczky, Rita Leistner e Omar Mullick) munidos de iPhones.

As fotos altamente estetizadas, se não moveram o público contra a favor do conflito, certamente mexeram com os fotojornalistas, o mercado e os especialistas. E também mantiveram um outro nível de comunicação entre os combatentes e seus parentes nos EUA. Milhares de pessoas continuam seguindo o projeto via, por exemplo, https://www.facebook.com/basetrack ou o site oficial, em http://basetrack.org/. A dúvida, contudo, também continua. Um bom fotógrafo pode fazer imagens poderosas com qualquer equipamento, independente da tecnologia empregada, ou, como diz Jean-François Leroy, “esse tipo de aplicativo tende a padronizar a fotografia – você não clica suas imagens, você clica as imagens de Ben Lowy (fotógrafo de conflitos que usa quase que exclusivamente iPhones)”.

2 Responses para “Basetrack Project – popularização para mobilização ou a velha glamourização da fotografia de guerra?”

  1. Sonia
    16/07/2015 at 00:27 #

    Sabemos que o processo de formação dos movimentos sociais vai muito além da semântica. Não sei até que ponto a democratização da imagem dá conta de uma mobilização contestatória… Com a popularização dos celulares com câmeras, a fotografia tornou-se mais acessível, e aí podemos falar em socialização da fotografia.

    • maria eugenia
      16/07/2015 at 01:28 #

      sem dúvida amiga Sonia acho que popularização é a palavra, o difícil é fazer a curadoria no turbilhão de imagens,
      abs