Raquel Sá

Road Movie

O gênero road movie surgiu no cinema norte-americano e é muito comum vermos personagens em busca de respostas para problemas existenciais, encontrar um sentido na vida, pegando carona, ou pondo o carro para rodar pelo país. O mais emblemático talvez seja o hoje clássico da contracultura Sem Destino (Easy Rider), que marcou época e está diretamente associado, na memória do público, com liberdade e com a música Born to be wild, de Steppenwolf.


Dirigido pelo jovem Dennis Hopper, em 1969, auge do movimento hippie, mostra os amigos motoqueiros Billy (Hopper) e Wyatt (Peter Fonda) na estrada, a caminho de Nova Orleans, onde pretendem chegar a tempo de curtir a famosa festa Mardi Grass – espécie de Carnaval local. No caminho conhecem o advogado alcoólatra George Hanson (Jack Nicholson); fazem farra em cemitério; e se envolvem em confusões.

A montagem das cenas fugia do convencional e a história era original, pois colocava em lados opostos os reacionários conservadores e os jovens libertários. Além disso, Hopper contou na trilha sonora com músicas dos principais nomes do rock do período, como Jimi Hendrix e The Band, o que ajudou na identificação da plateia com a produção, que captava anseios daquela geração.

O filme foi rodado em sete semanas, com orçamento de U$ 500 mil. Porém, essa soma foi recuperada rapidamente, com a bilheteria de um cinema em apenas uma semana de exibição. Ao todo, o longa arrecadou mais de U$ 19 milhões. Uma produção realizada com o intuito de incomodar, revolucionar, quebrar tabus. E abrir portas para uma nova leva de cineastas.


Um dos filmes mais cultuados dos anos 80 também tem como cenário a estrada. Dirigido pelo alemão Win Winders, o poético Paris, Texas mostra a trajetória de um homem solitário (Harry Dean Stanton), que vaga sem rumo desde que foi abandonado pela jovem esposa (Nastassja Kinski).

Perturbado por lembranças desagradáveis, Travis está recolhido em seu mundo, incomunicável, e só conseguirá sair do estorpor e voltar ao convívio social com a ajuda do irmão Walt (Dean Stockwell). Após se recuperar, conseguirá se reaproximar do filho (Hunter Carson) e partirá em busca da ex-mulher.

O bom roteiro foi escrito a seis mãos: pelo diretor; pelo ator e dramaturgo Sam Shepard; e por L. M. Kit Carson (pai do garoto que interpreta o filho de Travis).

Mas o segredo do sucesso do filme junto à crítica e ao público segmentado não está na história, mas na forma como ela foi apresentada ao espectador. Com belos enquadramentos de paisagens secas, desérticas, que refletem o estado de espírito do protagonista e uma música inspirada de Ry Cooder, que completa a sensação de vazio e de abandono.
É um olhar estrangeiro sobre a América, sobre suas propagandas, cartazes, grafites, trens, motéis, estradas. Uma história que transmite ternura por seus personagens, seus vícios e possíveis recomeços.

O título do filme refere-se a uma localidade abandonada no Texas, o local onde Travis havia comprado um terreno e planejava viver com a esposa. Um filme interessante, que além das qualidades já apontadas, conta com boas atuações de todo o elenco.

O nome do cineasta David Lynch tem associação direta com histórias diferentes, sanguinolentas, que centram a ação em personagens intensos, obsessivos, com manias estranhas, e, muitas vezes, com a estrada como pano de fundo, caso de Coração Selvagem, ou como ponto de partida, como no onírico Mulholand Drive. Mas, de todas as suas produções, a que mais surpreendeu o público foi Uma História Real, sobre um velhinho que percorre o país em cima de um cortador de grama para encontrar com o irmão, com quem não fala há dez anos. Como o próprio título entrega, o longa-metragem é baseado em uma história real.

Inspirado em fatos da vida de Alvin Ray Straight, o longa acompanha a jornada desse senhor de 73 anos, que, mesmo sem estar em plenas condições físicas ou possuir uma carteira de motorista, se dispõe a atravessar o país, de Iowa até Winsconsin, para resolver pendências familiares.

Alvin cruza 350 milhas em seu cortador de grama, vagarosamente, porém a viagem não é cansativa para o expectador, que curte os encontros, as conversas, os insights, e passa a valorizar mais a própria experiência de vida e a reconhecer que brigas e discussões não são importantes, diante da brevidade da existência.

A escolha do ator Richard Farnsworth para o papel de Alvin contribuiu bastante para conseguir a empatia do público com a história. Infelizmente, o ator faleceu um ano e meio após a realização do filme, que lhe garantiu um reconhecimento tardio da Academia à sua atuação, com uma indicação ao Oscar.


Antes de se aventurar no universo de OO7 (007 – Operação Skyfall), o britânico Sam Mendes surpreendeu o público ao lançar em 2009 o romântico e otimista road movie Por uma vida melhor (Away we go). A história mostra um casal trintão que decide viajar pelo país para ver qual é o melhor local para criar o filho que estão esperando.

Em sua primeira incursão em terras norte-americanas, Sam Mendes havia criticado o “american way of life” no premiado Beleza Americana. No segundo, Estrada para Perdição, fez uma escalação de elenco insólita, com o eterno bom moço Tom Hanks como matador profissional e o galã Jude Law interpretando um mau-caráter sem atrativos físicos. No terceiro, Foi apenas um sonho, voltou aos anos 50 para alfinetar as convenções sociais do período, com um jovem casal em crise, interpretado pelos atores Leonardo DiCaprio e Kate Winslet, o mesmo casal da superprodução romântica Titanic.

Desta vez, Burt Farlander (John Krasinski) e Verona De Tessant (Maya Rudolph) estão apaixonados, mas, ao contrário de outros casais que conhecem, ainda não estão bem estabelecidos financeiramente, têm empregos flexíveis, que os permitem viajar sempre que quiserem, e, por isso, partem para visitar amigos em cidades dos Estados Unidos e do Canadá para escolher onde será o seu novo “lar”.

Os casais que eles visitam vivem dentro dos padrões estabelecidos, mas são um pouco estranhos, cada um a sua maneira. Ou seja, o olhar crítico, meio ácido de Mendes sobre a América, ainda marca presença, mas as belas músicas de Alexi Murdoch que compõem a trilha sonora combinam perfeitamente com o clima esperançoso da história. É um filme sensível, que aponto novos caminhos para as famílias e promove reflexão nos expectadores.

John Krasinski e Maya Rudolph são atores badalados da comédia televisiva, revelados, respectivamente, nos programas The Office e Saturday Night Live. E o casal de roteiristas Dave Eggers e Vendela Vida têm livros publicados e um coletivo literário que faz sucesso no circuito indie norte-americano. Talvez por isso Por uma vida melhor seja o filme mais diferente da obra de Sam Mendes, o que menos tem a sua cara.


Já o brasileiro Walter Salles tem familiaridade com os road movies. Após realizar Central do Brasil nas estradas brasileiras e Diários de Motocicleta nas estradas da América Latina, o cineasta topou um superdesafio: adaptar para as telas o livro On the Road, a clássica obra de Jack Keruack, que influenciou gerações de leitores; alguns deles, bem famosos, como os compositores Bob Dylan, Jim Morrison e Tom Waits; o escritor Hunter S. Thompson e o ator Johnny Depp.

A história se passa no final dos anos 40. Sal Paradise (Sam Riley), alter ego do escritor, vive uma vida pacata em Nova Jersey antes de conhecer o libertário Dean Moriarty (Garrett Hedlund), ex-presidiário e charmoso sedutor de mulheres. Juntos decidem colocar o pé na estrada e conhecer a fundo os Estados Unidos. A companhia mais constante dos dois nas viagens é a jovem esposa de Dean, Marylou (Kristen Stewart), de 16 anos.

Na Estrada mostra as desventuras e experimentações lisérgicas da dupla, enquanto encontram com outras personalidades do mundo literário, como Bull Lee (Viggo Mortensen), inspirado no escritor William S. Burroughs, e Carlo Marx (Tom Sturridge), personificação do poeta da geração beat Allen Ginsberg.

Apesar de colecionar prêmios em festivais internacionais, e ser respeitado por público e crítica por seus filmes sensíveis e poéticos, o diretor não agradou muito com essa produção, episódica e irregular. Dependendo de quem está na tela, a história fica mais ou menos interessante. Na verdade, Salles tentou captar a essência da obra de Kerouac, vagar sem rumo certo.

On the Road sempre foi considerado uma obra difícil de adaptar. Francis Ford Coppola adquiriu os direitos de adaptação em 1979, mas acabou desistindo de dirigir o projeto, optando por ficar na produção do longa de Salles. O diretor brasileiro fez uma longa pesquisa de quase cinco anos antes de rodar as primeiras cenas, visitando as locações para conseguir transpor a atmosfera dos clubes de jazz do período e reconstruir o estilo de vida dos jovens beatniks. A graça de descobrir o sexo, as drogas; curtir a vida sem obrigações, subvertendo a ordem, recusando qualquer norma. O material de pesquisa será lançado posteriormente em formato de documentário (Searching for On the Road).

Os pontos positivos que podem ser ressaltados da produção são: a fotografia correta, de Eric Gautier, e algumas boas interpretações, especialmente de Garrett Hedlund, que conseguiu entender e reproduzir a personalidade magnética de Dean Moriaty, inspirado em Neal Cassady. 

O filme é sobre pessoas em busca de sensações, experiências, sem objetivos concretos a alcançar. Portanto, difere da maioria dos filmes, onde os protagonistas devem superar dificuldades para obter o que desejam. A falta de um propósito narrativo pode explicar a recepção mista que o filme recebeu.

Entretanto, como quase todo road movie, trata-se de uma viagem de formação, de moldar a personalidade, a vida futura, e fazer escolhas (certas ou não).

A seleção desses filmes privilegiou produções que tivessem como cenário as estradas norte-americanas, pois foi em Hollywood que o subgênero road movie foi criado. São cinco longas que representam gêneros diferentes: aventura, drama, comédia, biografia, adaptação literária. O foco principal foi escolher bons filmes, com algumas lições de vida.

Sem Destino
Nome Original: Easy Ryder
Direção: Dennis Hopper
Roteiro: Henry Fonda, Peter Fonda, Terry Southern
Elenco: Dennis Hopper, Peter Fonda, Jack Nicholson, Karen Black, Mac Mashourian, Phil Spector, Robert Walker, Antonio Mendoza,Tita Colorado, Warren Finnerty
Produção: Bert Schneider
Fotografia: László Kovács
Trilha Sonora: Roger McGuinn
Gênero: Aventura
Duração: 95 min.
Classificação: 14 anos

Paris, Texas
Direção: Wim Wenders
Roteiro: L. M. Kit Carson, Sam Shepard, Wim Wenders
Elenco: Harry Dean Stanton, Dean Stockwell, Nastassja Kinski, Hunter Carson, Aurore Clément.
Produção: Anatole Dauman, Don Guest
Fotografia: Robby Müller
Trilha Sonora: Ry Cooder
Gênero: Drama
Duração: 150 min.
Classificação: 14 anos

Uma História Real
Nome Original: The Straight Story
Direção: David Lynch
Roteiro: Joan Roach, Mary Sweeney
Elenco: Richard Farnsworth, Sissy Spacek, Harry Dean Stanton, Anastasia Webb, Barbara E. Robertson, Barbara June Patterson, Barbara Kingsley, Bill McCallum, Dan Fahey, Dan Flannery, Donald Wiegert, Ed Grennan, Everett McGill, Garrett Sweeney, Gil Pearson, Jack Walsh, James Cada, Jane Galloway Heitz, Jennifer Edwards-Hughes, Jerry E. Anderson, Jim Haun, John Farley, John Lordan, Joseph A. Carpenter, Kevin P. Farley, Leroy Swadley, Matt Fahey, Matt Guidry, Peter Sweeney, Ralph Feldhacker, Randy Wiedenhoff, Russ Reed, Sally Wingert, Tommy Fahey, Tracey Maloney, Wiley Harker
Fotografia: Freddie Francis
Trilha Sonora: Angelo Badalamenti
Produção: Mary Sweeney, Michael Polaire, Neal Edelstein, Pierre Edelman
Gênero: Drama; Biografia
Duração: 111 min.
Classificação: 14 anos

Por uma vida melhor
Nome Original: Away we go
Direção: Sam Mendes
Roteiro: Dave Eggers, Vendela Vida
Elenco: John Krasinski, Maya Rudolph, Maggie Gyllenhaal, Allison Janney, Catherine O’Hara, Jeff Daniels, Melanie Lynskey, Paul Schneider
Produção: Edward Saxon, Marc Turtletaub, Peter Saraf, Sam Mendes
Fotografia: Ellen Kuras
Trilha Sonora: Alex Murdoch
Gênero: Comédia Dramática
Duração: 98 min.
Classificação: 16 anos
On the Road – Na Estrada

Nome Original: On the Road
Direção: Walter Salles
Roteiro: Jose Rivera
Elenco: Garrett Hedlund, Sam Riley, Kristen Stewart, Kirsten Dunst, Tom Sturridge, Viggo Mortensen, Amy Adams, Alice Braga,Barbara Glover, Bennie Bell, Coati Mundi, Dan Beirne, Danny Morgan, Elisabeth Moss, Emily D. Haley, Giovanna Zacarías, Greg Kramer, Imogen Haworth, Jacob Ortiz, Jake La Botz, Janeé Crump, Jeffrey T.Ferguson, Joe Chrest, Joey Klein, Kaniehtiio Horn, Kim Bubbs, Kymberly Jenal, LaFonda Baker, Larry Day, Madison Wolfe, Marie-Ginette Guay, Matthew Deano, Murphy Moberly, Patrick JohnCostello, Richardo Andres, Rocky Marquette, Sarah Allen, Sean J. Dillingham, Sona Tatoyan, Steve Buscemi, Terrence Howard, Tetchena Bellange, Timothy A. Vasquez,
Produção: Charles Gillibert, Jerry Leider, Nathanaël Karmitz, Rebecca Yeldham, Walter Salles
Fotografia: Éric Gautier
Trilha Sonora: Gustavo Santaolalla
Gênero: Drama
Duração: 137 min.
Classificação: 16 anos

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