Raquel Sá

Anonymus

Já pensou se o dramaturgo inglês William Shakespeare nunca foi quem pensamos que fosse? E se o criador de todas aquelas obras-primas (Romeu e Julieta, Hamlet, Macbeth, Henrique V, entre outras) tiver sido o refinado conde de Oxford Edward de Vere, que teria começado a escrever ainda na infância? Pois este é o argumento de Anônimo (Anonymous), mais novo filme do diretor alemão Roland Emmerich. Mesmo partindo dessa interessante premissa, a produção foi lançada diretamente no mercado de DVD no Brasil.

O filme alega que o conde não assumiu a autoria pois não pegava bem para a nobreza da época estar associada às artes e, muito menos, a obras que criticavam abertamente a realeza e o status quo. As peças eram encenadas em teatro lotados, com ingressos vendidos a preços módicos ou mesmo exibidas em sessões gratuitas, voltadas para se comunicar diretamente com o povo. E Shakespeare(Rafe Spal), por outro lado, nos é apresentado como alguém que entrou para a história por acaso, simplesmente por ser amigo do diretor e autor Ben Jonson (Sebastian Armesto), que não quis assumir as peças de Edward de Vere e, desta forma, deixou o caminho aberto para ele - ator bêbado e fanfarrão.

Paralelo a isso, o filme retrata uma disputa política pela sucessão do trono de Elizabeth I (Vanessa Redgrave e, na juventude, representada por sua filha, Joely Richardson) com a ganância dando o tom para intrigas palacianas e romances proibidos. O conde é interpretado por Rhys Iphans, conhecido das comédias britânicas, que está bem no papel principal.

A primeira vista é estranho associar o nome de Emmerich a um filme passado no século 16, suntuoso na recriação e na proposta, porém em uma análise mais detalhista percebemos que o diretor realizou mais um filme de destruição, nos mesmos moldes dos que lhe deram fama, como 2012, O dia depois de amanhã e Independence Day. O diferencial aqui é que, no lugar de vermos em pedaços monumentos conhecidos das grandes cidades, acompanhamos a desconstrução da reputação da maior lenda da dramaturgia mundial.

É curioso saber que o diretor bancou a produção do próprio bolso para ter o controle total sobre a produção, e que os efeitos visuais, característicos de sua obra, aparecem na incrível recriação do teatro The Globe, onde algumas peças do bardo inglês foram encenadas. Outros pontos positivos são a direção de arte e os figurinos. Mas os flashbacks em profusão podem confundir os mais desatentos. E a apresentação da história, com o ator Derek Jacobi em cima do palco, contando quem era de fato Shakespeare, deve desagradar os mais ardorosos fãs do autor. Da forma como tudo foi montado, o filme impõe um ar de veracidade ao relato.

A teoria de que William Shakespeare não escreveu nada não é nova. Nos últimos dois séculos diversos estudiosos de sua obra, incluindo Sigmund Freud, Henry James e Mark Twain, se debruçaram sobre a possibilidade de Francis Bacon, Christopher Marlowe ou Edward de Vere terem sido o verdadeiro autor das 37 peças, 157 sonetos e demais poemas atribuídos a Shakespeare. Edward de Vere visitou as cidades retratadas nas peças de teatro e tinha talento para a escrita. E, além disso, há semelhanças entre a sua vida e o enredo de Hamlet. Porém o nobre chegou a assinar textos em seu nome e morreu antes que fossem escritas e encenadas algumas obras, como Otelo e Rei Lear. Por que então passaria para outra pessoa as suas melhores peças de teatro?  

Anônimo é um filme criativo, que une personagens reais e fatos ficcionais, e dessa mistura consegue um bom produto de entretenimento para prender a atenção do espectador por mais de duas horas. E o objetivo principal é alcançado: fazer com que a platéia passe a questionar se Shakespeare foi o genial dramaturgo, incensado por público e crítica ao longo dos séculos, ou se não passou de uma farsa literária muito bem-feita, que perdura até os dias atuais.

Ficha Técnica: Anonymous

Diretor: Roland Emmerich

Elenco:

Rhys Ifans, David Thewlis, Jamie Campbell Bower, Joely Richardson, Vanessa Redgrave, Sebastian Armesto, Rafe Spall, Derek Jacobi, Xavier Samuel, Edward Hogg, Sam Reid, Paolo De Vita, Trystan Gravelle, Robert Emms, Tony Way 

Gênero: Drama

Duração: 130 minutos

Ano: 2011

Censura: 14 anos

4 Responses para “Anonymus”

  1. Raquel Sá
    Raquel
    12/04/2013 at 11:07 #

    Obrigada tia. Vou aproveitar este espaço aqui no blog e escrever com mais frequência. Bjs

  2. Cléa Sá
    Clea
    05/04/2013 at 12:05 #

    Bom tê-la de volta. Há poucos dias vi o Moonrise Kingdom que você recomendou e amei. Ótimo. Seja, pois, bem-vinda
    Cléa

  3. maria eugenia sa
    05/04/2013 at 00:26 #

    Boa dica! Vamos pegar, mas torço para que Shakespare seja sempre o nosso bom e velho Shakespare..

    • Raquel Sá
      Raquel
      12/04/2013 at 11:09 #

      Eugênia, vocês vão gostar do filme. Assista como um produto de ficção mesmo. Se o Shakespeare não for mais o nosso conhecido Shakespeare, a gente começa a duvidar de tudo. Bjs