Raquel Sá

O homem ao lado

Já virou senso comum reconhecer a maestria dos argentinos na elaboração de roteiros cinematográficos. Os hermanos conseguem transmitir emoção sem precisar apelar para pirotecnia, seduzindo o espectador basicamente com três elementos: uma história instigante, cenários reduzidos e atores competentes.

O Homem ao lado, por exemplo, parte de um pequeno desentendimento entre vizinhos para fazer uma crítica ao modo de vida urbano, voltada especialmente às questões de segurança e as normas sociais criadas pela classe média alta. Tudo começa quando um deles resolve abrir uma janela de frente para a bela casa do outro. Desde a abertura, com a tela dividida em preto e branco, o espectador fica curioso para saber o que significam aquelas marteladas no lado direito e o buraco na parede no lado esquerdo.

Os vizinhos Victor (Daniel Araóz) e Leonardo (Rafael Spregelburd) não poderiam ser mais diferentes. O primeiro é um homem simples, rude, meio estranho, mas sedutor. O segundo é um designer renomado e metido, que vive na Casa Curutchet – única casa projetada pelo mestre do modernismo Le Corbusier na América Latina.

A disputa pela janela, se deve ficar aberta ou ser fechada, revela o abismo social em que os dois vizinhos vivem. E será esta pequena discórdia que forçará Leonardo a sair de seu casulo protetor e lidar com o “homem ao lado”. Inicialmente o espectador procura uma identificação com o morador da Casa Curutchet, mas logo as ações antipáticas do personagem levam o público a simpatizar com o bronco e franco Victor.

Afinal, Victor só quer “um pouco de Sol” em sua casa, porém Leonardo considera a janela voltada para o seu lar uma invasão de privacidade, e uma afronta ao seu apuro estético. O ponto de vista da história é do bem-sucedido designer, que tem um casamento infeliz e uma filha adolescente praticamente incomunicável. Os estranhos enquadramentos que narram a história traçam um paralelo com a profissão dele. E a música também combina com o mundo de aparências em que este personagem vive.

É preciso ressaltar que os diretores Mariano Cohn e Gastón Duprat trabalham com estereótipos (o machão cafona e o moderninho esnobe) e oposições – a natureza (o parque arborizado na frente da casa) e o urbano (a casa, com vãos amplos e parede de vidro), assim como opõe o bom gosto da burguesia, representada pelos móveis elegantes de Leonardo, e a praticidade popular, como é o furgão mobiliado de Victor.

Mas o que o filme pretende mesmo é ressaltar o modo de vida um tanto vazio da classe média alta, que pode ser encontrada em qualquer canto do mundo, e não só na Argentina. Pessoas com acesso fácil à cultura que, muitas vezes, analisam superficialmente o que vêem ou ouvem, e não gostam de sair do conforto de seu “mundinho”.

Entretanto o filme poderia aprofundar mais a questão social e desenvolver melhor algumas cenas. Mas a sacada de enquadrar os personagens em pedaços e revelar como eles são (de fato) aos poucos, é bem interessante.

Há também uma homenagem à beleza estética e a arquitetura em geral, valorizadas pela fotografia e pela direção de arte. E o principal os diretores conseguem: propor aos espectadores o questionamento de seus próprios valores.

Do Festival de Sundance de 2010, o filme saiu com três prêmios: melhor ator, dividido entre os dois intérpretes dos vizinhos; melhor direção e melhor fotografia (Guilhermo Nieto).

Para quem gosta de cinema argentino, recomendo a comédia humanista Um conto chinês e o suspense melodramático O segredo dos seus olhos – ambos estrelados por Ricardo Darin – e os divertidos (e inteligentes) filmes de Daniel Burman.

Ficha do Filme

 Elenco: Rafael Spregelburd, Daniel Aráoz, Eugenia Alonso, Inês Budassi

Gênero: Drama

Duração: 100 min.

Classificação:  14 anos

Postado em 27/9/2012

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