Cléa Sá

João Cinza

 João Cinza não era cinza, era preto. Canoeiro de profissão, era muito útil naquela cidadezinha onde quase todo o transporte era feito em canoa. cidade era Araioses, só areia, e para tudo se ia a Parnaíba: médico, dentista, compras. Isso há muito tempo atrás.

Canoeiros, outros haveria. Deles não sei. Sei de João Cinza, nosso canoeiro, e sei de uma viagem. Fui, menina de dez anos, com João Cinza para Parnaíba. Ia ao dentista.

A canoa pequenina, lá fomos nós. Primeiro, pegava-se o Santa Rosa, rio largo; depois de certo tempo de viagem, saía-se do rio e entrava-se nos igarapés. Começava aí um mundo diferente. Estreitinhos, os igarapés, alguns mal davam passagem para a canoa. O mato fechava por cima, caía por dentro da água; os sons que vinham da mata, bem próximos, sussurros, murmúrios… Seriam pássaros, bichos? Seria apenas o som dos remos ao bater na água?

Sentadinha, ia a menina, olhando de olho bem aberto aquele verde de muitos tons, os cipós se entrançando sobre sua cabeça, camaleões enfiando a cara verde entre as folhagens, aves batendo asas depressa e voando em bando ao sentirem a aproximação estranha.

João Cinza remava calado. Às vezes encostava os remos e deixava a canoa descer na correnteza. Nessas horas, enrolava um cigarro, que aceso cheirava forte e bom. Noutras vezes, os remos eram deixados de lado para que a canoa fosse empurrada com uma vara longa, numa margem, na outra margem, que tudo tem ciência: tem hora de remar e hora de empurrar com vara.

A sabedoria de João Cinza era grande. Como, naquela encruzilhada de tantas águas, todos os igarapés iguais, saber o caminho certo?

Sentadinha na canoa, a menina ia, nem falava, tão bonito tudo. Verde e mais verde, água, sons e silêncio, vento perpassando sobre cabelos lisos, sonhos de mãe-d’água, limo verde, pedras lisas…

Lá em Parnaíba, chegados, João Cinza dizia:- a menina pode ir, eu fico esperando aqui no porto. E a menina ia para onde tinha de ir, sabendo a hora de voltar, que a travessia de volta tinha ainda mais ciência, hora certa de pegar a maré enchente, que os igarapés viviam do mar, enchiam e vazavam conforme a sua vontade.

Mas, nessa viagem, foi perdida a hora. Atraso no que tinha de ser feito na cidade? É o mais certo de ter acontecido que a sabedoria de João Cinza não tinha como se enganar.

Aí, ele disse, parece que a maré já começou a baixar, vamos arriscar assim mesmo. E foram, e fomos. Remo nas mãos, desta vez a remar com força, os músculos levantando o pano de riscado da camisa, a menina sentada quieta no banco da canoa. E foram, e fomos. O igarapé baixando, o fundo coroando aqui e ali, a água baixando, baixando, até que secou de vez e a canoa encalhou.

O lugar parecia mata fechada. Mas, entre as árvores altas e a muita folhagem, mágica de João Cinza? havia uma palhoça. A canoa foi amarrada num tronco e arrastada para o seco, uma areia tão branca que parecia praia de mar, e lá foram, fomos.

Na casa de adobe, chão de terra batida, folhas de palmeiras secas cobrindo o teto e espalhadas no chão, a mulher nos deu para comer camarão seco com farinha e água para beber. Depois dos come, o descanso na calma de esperar a maré encher. Tempo devagar, silêncio mal cortado pelas poucas palavras que os dois, canoeiro e mulher, trocavam. A menina, embalada pelas vozes dos dois e pelos sussurros da mata, ficou ali quieta numa modorra gostosa, hora de ver saci, anta, mãe-d’água e tudo que existe e só aparece assim, nessas horas. A menina não viu, só pensou que podia ver, e ficou ali, achando bom.

Mas a maré encheu, deu passagem, e foram os dois, canoeiro e menina, no murmúrio-silêncio da mata-água e, de noitinha, lua já no céu, chegaram em casa e não tinha ninguém preocupado não que João Cinza era homem de bem, podia carregar ouro em pó e filha de família.

Dessa viagem, que relembro agora passados tantos anos, queria retomar aquela calma de esperar maré subir. De João Cinza, penso que é uma estrela no céu.

 

Republicação

4 Responses para “João Cinza”

  1. clea
    22/01/2013 at 21:48 #

    Que bom ler os comentários de vocês, caras amigas. Fico muito feliz de que o ” João Cinza” tenha batido em teclas antigas e encontrado eco. Grata pelas bondosas palavras.

  2. odete
    21/01/2013 at 22:58 #

    Cléa,por onde andam os “joãos cinzas”?Guardados nas lembranças da gente? É preciso tirá-los de páginas tão poéticas quantas suas e começar procurá-los, semelhantes, nos baús de nossas recordações. Com certeza vamos encontrá-los. Odette

  3. josenita
    21/01/2013 at 13:13 #

    Cléa, sem dúvida que pessoas como João Cinza ainda existem nesse nosso mundo. O que

    despareceu, parece, foi a confiança nossa de cada dia…

  4. Regina Motta
    regina
    20/01/2013 at 11:46 #

    Clea, pura poesia! Me encantei e senti uma inveja sã da menina que viveu essa aventura! Eu, menina de cidade grande, o mais emocionante era pegar o bonde sozinha!