Cléa Sá

Donana

 

Ana, dona Ana, Donana, nomes de minha avó, mãe do meu pai. Não a conhecemos,  só suas histórias. Contavam que morreu de uma alegria. Um irmão que não via há muitos anos chegou um dia para visitá-la. Fez uma festa.  A alegria foi tanta que seu coração não aguentou. Morreu naquela mesma noite.

A figura de Donana foi se formando aos poucos para nós: Donana gostava de muita alegria, vez por outra chamava sanfoneiro para tocar em sua casa. Donana não podia ver ninguém passar fome. Morava à margem de uma estrada por onde transitavam tropeiros e às vezes ela parava algum viajante para oferecer comida.

Meu pai, já velho, comia muito pouco. E às vezes dizia, o olhar perdido no tempo: estou ficando como minha mãe, ela quase que só bebia caldo. Palavras simples, mas ditas com um acento que nem sei explicar, lembrança de uma vida já encerrada, saudade de um amor muito grande, dava pra se ver.

Donana casou-se aos treze anos com um primo, quase um menino também, que precisava entrar na maioridade. Coisa de uma herança que estava sendo dilapidada pelo tutor. É o que contavam. Bem, o casamento aconteceu e Donana permaneceu na casa do pai esperando um tempo.  O tempo foi passando, Donana começou a namorar outro primo e ia fugir com ele, quando a madrasta a pegou, já na cerca do quintal: “você está doida, você é uma mulher casada, quer se desgraçar?” Donana chorou muito, sacrificada que tinha sido, mas foi morar com o marido e começou a ter filho. Teve seis em dez anos.

Um dia teve ciúmes do marido que jogava cartas com uma vizinha. Intempestiva, rasgou o baralho. O marido era um homem frio, contam, levantou-se calmamente e disse: “estava jogando de brincadeira, de agora em diante vou jogar a sério”. E assim fez. Começou a jogar e a perder, a jogar e a perder e assim, com método e raiva, perdeu tudo, casas, rebanhos de bode, terras. Donana sofria, mas não podia fazer nada, só assinava as escrituras de venda. Mas quando teve de assinar a escritura da última casa, bateu pé. Desta vez, não. Dê outro jeito,  minha casa de morada não. O marido olhou e falou duro: “aqui não fico mais, desmoralizado por mulher. Vou lhe dar dez anos para aprender”. E sumiu no mundo.

Começou então  a luta de Donana para criar os filhos. Meu pai, o mais velho, tinha treze anos e largou a escola no terceiro livro de Felisberto Carvalho para trabalhar.

Essa história começou em Cabrobó, em Pernambuco e foi terminar em Barra do Corda, no Maranhão, onde, depois de dez anos completados, Donana  voltou a morar com o marido. Não viveram muito, pois logo o velho Casé, como era chamado então, morreu.

Donana ficou viúva, ainda nova. Quando se alegrou de novo, fazia festas, chamava violeiros e repentistas sob o olhar aprovador dos filhos que gostavam de vê-la feliz.  Meu pai dizia: ela já sofreu muito, deixa se divertir, não teve mocidade. Era mais pai do que filho.

Tanto que um dia chegou para seu Aderbal, um senhor que estava sempre visitando Donana e perguntou: – “seu Aderbal, o senhor gosta da minha mãe?” Seu Aderbal tremeu, ficou pálido, balbuciou: – “tenho por ela uma grande admiração, com todo respeito; se o senhor acha que não fica bem, me afasto”. “Não, não é isso, disse meu pai. Pergunto é se gostaria de casar com ela.”

Seu Aderbal mal acreditava na sua sorte. Aceitou, o casamento foi feito e viveram felizes os anos que lhes restaram.  Que Donana gostava de ser feliz.

 

2 Responses para “Donana”

  1. clea
    22/01/2013 at 21:54 #

    E apenas com pequenas invenções para preencher os vazios, é uma história verdadeira. Da sua bisavó. Obrigada por ler e gostar.
    Cléa

  2. Francisco
    21/01/2013 at 16:28 #

    É uma história de “sangue” suor tristeza e alegria…. que se torna muito especial e saborosa contada pela senhora. Beijos Chico