Cléa Sá

Cinco Histórias Curtas

  I

Eram aparentados e foram amigos a vida toda. Quando se encontravam falavam da família, do trabalho, de dinheiro, de como ia o Brasil. Só não falavam nunca daquela tarde distante em que ela, hospedada em sua casa, lia uma revista e, levantando os olhos, deu com ele, a porta do banheiro entreaberta, um dedo nos lábios pedindo silêncio, a outra mão fazendo um gesto de chamado. Assustada, baixou a vista. Quando  olhou outra vez, a porta estava fechada.

 II

 Alencarino  bebia, jogava, mexericava e era metido a valente. Alguns diziam que a valentia era para disfarçar a homossexualidade não assumida. Certa noite ao voltar da farra com um amigo, o carro bateu fortemente num obstáculo. O amigo disse, vamos parar, acho que atropelaste um homem. Que nada, foi um cachorro que matei. Seguiu. Tinha sido mesmo um homem, o atropelado. Que morreu.

Cerca de um ano depois, saía do carteado, quando um molecote franzino, talvez tivesse uns treze anos, enfiou-lhe a faca várias vezes na barriga, enquanto dizia: seu filho da puta, sou o filho daquele cachorro que mataste.

 III

Ela servira aos outros durante toda sua longa vida. Casara tarde com um viúvo,  já desesperançada de ter sua própria casa. Cuidara do marido, dos enteados, dos filhos e depois dos netos. Falava pouco e baixinho. Quando velhos, perderam a casa e foram morar com os filhos. Alguns meses na casa de um, outros, na casa de outro e depois de outro. E iam mudando. Ela ajudava no que podia. A maior parte do tempo ficava quase invisível. Sentada em uma cadeira, consertando as roupas da família, enrolava os fiapos na mão fazendo uma bola, nada caía no chão. Comia e bebia como um passarinho.

O marido morreu e ela ficou na mesma, de casa em casa, silenciosa. Já bem velha, após uma queda, começou a variar, segundo as filhas. Xingava, jogava o que tinha nas mãos em quem entrava no quarto, dizia os palavrões mais escabrosos em voz alta. As visitas foram proibidas. Só as filhas, espantadas e atarantadas, cuidavam dela. Dizia o médico que era consequência da arteriosclerose. Podia até ser. Podia ser, porém, apenas  o extravasamento de toda uma vida de silêncio e humilhação.

IV

Muito jovem, no Recife, matou um colega de aula, numa briga. Teve de fugir para não ser preso ou morto pela família do jovem assassinado. Foi dar bem longe, numa cidadezinha perdida. O homem que o acolheu, em consideração a amigos comuns, arranjou-lhe trabalho. Também fazia as refeições com a família. Em casa, o homem recomendou aos filhos e em especial às filhas,  tratem o rapaz bem, mas não quero intimidades. E assim se deu.

Até que, noite de lua, ele não saiu após o jantar, como estava assentado que faria. Ficou um pouco na roda dos jovens da casa, conversou, brincou, riu e recitou versos de Omar Khayyan. Foi um deslumbramento.

Poucos dias depois, provocado por um homem na rua, matou-o com dois tiros. Desta vez foi preso.

V 

Era novo na cidade. Do  pátio da Igreja, que ficava em cima de um morro, olhava as ruas,  as casas, a pracinha.  Via até o rio. Foi quando o olhar deu com o quarto de uma moça que se trocava com a janela aberta, quase nua. E viu os seios jovens, belos, belos. Teve uma ligeira tontura.

Descobriu quem era a moça, namorou com ela, ficou noivo, a moça adoeceu e morreu em coisa de poucos dias. Nunca mais lhe viu os seios. Desesperançado, mudou de cidade.

Uma opinião para “Cinco Histórias Curtas”

  1. Vicente Sá
    18/12/2012 at 12:01 #

    Que llindeza. Emocionei-me. Fica um gostinho de quero mais.