Cléa Sá

As tias

Lembro-me e começo a cantarolar baixinho uma toada antiga que meu pai cantava:

A garça vai avoando

Baixa aqui baixa acolá

À procura de amor firme

Que nessa terra não há

 

Enquanto me vêm os versos, me vêm também histórias antigas das minhas tias.

Comecei a ouvir falar de Maria Gomes, irmã mais velha de meu pai, quando dava prova de mau gênio. Diziam: “- Esta menina está me saindo uma ‘Maria Gomes’! Não quero outra ‘Maria Gomes’ na família!” Devia ser uma praga essa tia, eu pensava, já que ninguém queria outra parecida por perto. Mas quando a  conheci anos depois – estava em um quarto em nossa casa, rodeada de malas e com uma menina loirinha segurando sua saia -, tive outra impressão. Sorriu e ao sorrir seu rosto se iluminou e fez esquecer as marcas com que o tempo e as intempéries da vida o tinham marcado. Não falava alto e sim de um jeito manso que não combinava com as muitas histórias do seu temperamento difícil. Diziam que tinha tido muitos homens, que seus casamentos não duravam porque era geniosa e briguenta, que não tinha medo de ninguém e por aí.  Nunca soube direito suas histórias. Apenas de uma sei um pouco, contada por uma filha sua.

Maria Gomes tinha ficado viúva do primeiro marido com três filhas. Casou de novo, teve dois filhos, e o segundo marido decidido a enricar foi tentar a sorte no garimpo, em Mato Grosso. Isso pelos anos 1930. Foi,  e quede que voltava?   Nova,  fogosa e bonita,  Maria não quis ficar só, arranjou um companheiro. Com ele,  dividia a labuta de uma pequena propriedade, a criação dos filhos pequenos e a cama.  Certo dia recebeu aviso que o marido estava voltando. O companheiro temeroso mais que depressa fugiu,  que o marido tinha fama de mau. Pois bem, o marido chegou, fez como se não soubesse de nada, tratou todos muito bem, disse que os  negócios em Mato Grosso tinham prosperado  e que ia levar  a família. Tudo lá estava arranjado.  Aí foi o corre-corre de vender tudo, preparar mudança, se despedir dos parentes e viajar. Foram para a tal cidade da qual não guardei o nome. Lá chegando, o marido mandou que se acomodassem na casa que  ia rapidinho fazer umas compras e já voltava. E não voltou. Nem naquele dia, nem no outro. Não voltou mais.  Maria Gomes se viu com quatro filhos, mocinhas e crianças, perdida em terra estranha, sem a ninguém conhecer e sem dinheiro, vítima da vingança de um homem traído.  O retorno para perto da família foi sofrido, só Deus sabe como se deu.

Na velhice, morava com uma filha em São Luís do Maranhão. Por essa época “variava”, como se dizia.  Sua mente se punha a vagar por estranhos caminhos, depois retornava ao caminho normal. Oscilava. Foi quando inventou um namorado: tinha nome, endereço, profissão e uma história de vida. A filha e os netos se envergonhando da invenção, resolveram pôr um fim na história. Mas com cuidado, para não ferir demais aquele velho coração. Assim disseram primeiro que tinham recebido um telegrama avisando que o rapaz estava doente, depois que tinha piorado, e por fim, comunicaram a sua morte. Foi nessa ocasião que fui visitá-la, sem saber do seu desgosto recente. Na conversa, perguntei-lhe se conhecia uns versos do sertão que falavam de uma garça branca e que meu pai gostava de cantar.  Ela me disse que conhecia sim, sabia muitos e podia até recitá-los. Só não podia cantar, pois estava de luto pela morte do… E disse o nome do namorado.  Anotei os versos e junto com eles guardei essa lembrança da minha tia, tão necessitada de amor.

Lá vem a garça avoando

Com uma laranja no bico

Eu não sei se é pecado

Namorar rapaz bonito

 De tia Angélica, pouco sei. Morava numa pobre casa na Rua da Boiada, lá em Pedreiras, com os filhos. O marido teria morrido ou se perdido no mundo? Não sei. Dele ninguém falava.  Dos filhos, sei de Noêmia que depois se tornou minha comadre, de Mário, e ainda havia outro, Peixoto, com quem minha relação era um tanto misteriosa. Não chegamos a ser amigos – eu era menina e ele já rapaz-, mas sempre quando nos encontrávamos passava por nós uma quase imperceptível corrente de simpatia. Esse pobre rapaz teve uma vida atormentada e um triste fim. Mas dele não falarei hoje, que o assunto são as tias. Tia Angélica, coitada, tinha um olho baixo, causado por uma doença sem tratamento, e uma fisionomia triste e boa. E quando morreu me propiciou uma alegria, a de vestir luto, desejo que eu, menina boba, então acalentava.

 A garça vai avoando

Com as penas que Deus lhe deu

Contando pena por pena

Mais pena padeço eu

Titia era como chamávamos tia Teonília. Lembro-me dela com um vestido de seda estampado, calçando sapatos de salto alto, cordão de ouro no pescoço, braços dados com Joaquim Lucas, de terno e gravata, caminhando em direção ao Éden ou ao Roxy, onde assistiriam a um filme da Atlântida, com Oscarito e Grande Otelo. Era só quando saiam de casa aqueles dois. E exemplificam bem a magia sobre o público que as chanchadas exerciam naquela época.  Viviam bem, embora não fosse segredo para ninguém que lá quem mandava era ela. Tinham um Hotel em São Luís, em um velho sobrado na Praça João Lisboa. Titia resolvia tudo, do cardápio aos hóspedes, em que quarto ficariam, o preço das diárias, se seriam bem-vindos ou não. Por que ela não aceitava qualquer hóspede, não. Joaquim Lucas fazia as compras no mercado diariamente, e só. Depois ficava no quarto dedilhando um violão por horas e horas. Ou então conversando com Moleque, apelido de Ribamar, o filho adotado que eles amavam apaixonadamente e educaram até fazê-lo médico.

Contavam, nem me parece ser verdade, que quando os dois moravam em Boa Esperança, interior de Barra do Corda,  ele foi delegado por uns tempos, mas as ordens de prisão, quando necessárias,  eram dadas por ela, pois ele, tímido ou medroso, não se atrevia. Ela era daquelas pessoas sem papas na língua, mas também  amorosa e sincera. Assumia com tranquilidade ser “o cabeça do casal” e o fato não causava constrangimento. Joaquim Lucas aceitava de bom grado a sujeição, a filha também, e todos os parentes.  Ele era assim como um príncipe consorte. Ai de quem chegasse a casa deles e não cumprimentasse primeiramente Joaquim Lucas. Titia fazia cara feia. E ela contava: “No tempo do Hotel, quando eu ganhava muito dinheiro, deixei de comprar um cordão de ouro grosso, pesado, que o Joaquim Lucas muito queria. Tu te lembras, Joaquim Lucas?” E ele, “Lembro, sim, Siá”.  Ou então, já depois da morte do marido: “Sinto muita falta do Joaquim Lucas. Vivo pedindo ‘me aparece, Joaquim Lucas’. Aí parava, mudava de tom,  e se dirigindo à alma do finado continuava,  ‘mas me aparece de dia, que de noite tenho medo”’.

A garça vai avoando

Seus encontros vão ringindo

Passa a moça pelo moço

Pisca um olho e vai sorrindo

Tia Cotinha era a irmã bonita. Pequenina, vestia-se bem e era famosa por seu exagero com a limpeza da casa e do sítio onde moravam, em Boa Esperança. Contavam que ela varria o terreiro na frente da casa até não ficar nenhuma folha caída no chão. Devia ser verdade. Morreu jovem, com pouco mais de 30 anos, do coração. Eles todos, na família do meu pai, tinham coração fraco. Tia Cotinha não teve filhos, mas criou como se filhos fossem dois sobrinhos. A eles nada faltava.  Só se davam mal se falassem a palavra clara, pois o marido, Joaquim Cravo, tivera uma namorada com esse nome. Tabu na sua casa, até a  clara do ovo tinha de ser chamada  “ branco do ovo”. Mocinha fugira para casar. O pai, homem duro, disse que ela estava morta para ele. Aí começou um desassossego, ela não conseguia ser feliz. Todos os dias ia à casa do pai pedir a bênção. Nada, ele se recusava. Até que um dia, ele disse para a mulher: “Donana, diz a essa moça que a abençoo, mas só depois de dar uma surra nela”. Ela aceitou feliz. Apresentou-se ao pai, levou 12 bolos de palmatória nas mãos, recebeu a bênção, e com a bênção, o perdão. Contam que saiu chorando, as mãos vermelhas, inchadas, e dizendo, ‘obrigado, meu paizinho, muito obrigado, meu paizinho’.

A garça pôs o pé n’água

Pra passar quarenta dias

Eu fora do meu benzinho

Não posso passar um dia

 

 

14 Responses para “As tias”

  1. Marcello Sá
    26/04/2013 at 01:42 #

    Querida tia, creio que a nossa grande família não é melhor nem pior do que qualquer outra, mas algo nos distingue da maioria: sempre demos valor à memória na forma de palavra. Mal dá para imaginar quantas histórias bonitas, com personagens interessantes, como essa que nos contaste vão se perdendo ao longo do tempo, sumindo às vezes antes de uma geração. Desaparecem porque não tiveram a felicidade de ter alguém para contá-las. Nesse sentido, a nossa família é muito especial, pois nela existem pessoas como você, que com seu grande talento de poeta e prosadora dá nova vida a tanta gente fascinante e suas histórias, parentes ou não, eternizando-os no papel, na internet e em nossas imaginações. Obrigado!

    • Cléa Sá
      clea sa
      26/04/2013 at 11:00 #

      Obrigada, Marcello, por suas tão belas palavras. E é uma pena mesmo que tantas belas histórias se percam. Muitas vezes lembro de pessoas, de pequenos trechos de suas vidas e não tenho mais como completá-los. Os que podiam fazê-lo, já se foram. Assim, enquanto tiver um pouco de engenho e arte, vou continuar contando para vocês essas histórias, a nossa única herança. Beijos
      Cléa

  2. Vicente Sá
    24/04/2013 at 12:33 #

    Cleíta, emocionei-me de novo. Já tinha lido o de Maria Gomes, mas todos eles juntos, ligados pelos versos, ficou uma docura. daquelas de causar encantamento.
    Obrigado e um beijo
    Vicente Sá

    • Cléa Sá
      clea sa
      26/04/2013 at 11:01 #

      Vicente, que bom que você gostou das nossas “tias”. Elas estavam querendo vir ao mundo há um tempão. Espero que outras histórias venham ainda.
      Beijos Cléa

  3. Bené
    18/04/2013 at 22:46 #

    Cleíta, mais uma vez sua escrita encantou, e fez-nos viajar a um mundo de personagens fascinantes…e como diria Aldenor, falando da Barra do Corda que ele e Mamãe recordavam: será que isso tudo existiu mesmo? Ou foi produto da nossa imaginação?
    Pois digo eu, Cleíta, que são da nossa imaginação também, porque você nos faz vê-los, e imaginamos conhecê-los do modo como você descreve,, e agora é assim que são.

    • Cléa Sá
      Cléa Sá
      19/04/2013 at 15:31 #

      Falar em Aldenor, com certeza ele diria, “eesa é a versão da Cléa, a história mesma foi assim…” E contaria a mesma história, porém com outros traços, mais verazes . Obrigada, querido, por seu comentário.

  4. Andrés Ibarra
    18/04/2013 at 19:27 #

    Parabéns, Cleíta. Somo-me, agora oficialmente, ao clube dos admiradores de sua prosa. Penso em reconhecer algo de suas tias em você. São, todas, belas personagens.

    • Cléa Sá
      Cléa Sá
      19/04/2013 at 15:33 #

      Obrigada, Andrés querido. Trocaremos figurinhas, já que sou fã incondicional dos seus escritos no balburdia.com.

  5. Paulinho
    18/04/2013 at 13:01 #

    Salve, Cleíta,
    depois da necessária pausa pra recuperar o fôlego, te digo: tua literatura é da mais alta qualidade, aquela que a gente vai sorvendo com o prazer proibido de gostar das coisas tristes e lindas. Obrigado e a benção.

    • Cléa Sá
      clea
      18/04/2013 at 14:21 #

      Paulinho, querido,

      Agradeço suas gentis palavras. Estava com saudades dos seus comentários. Obrigada
      Cléa

  6. maria eugenia
    17/04/2013 at 17:11 #

    Algumas dessas histórias já ouvimos quando crianças e os nomes são ainda tão familiares, que nem o tempo conseguiu levar…Lindas e poéticas as histórias. Parabéns por resgatá-las, tia.

    • Cléa Sá
      clea
      17/04/2013 at 18:43 #

      Eugênia,

      As histórias das tias são escritas para vocês, os jovens, para que não se perca esta rica história familiar. Fico contente que você tenha gostado.

  7. Cléa Sá
    clea
    16/04/2013 at 21:16 #

    Obrigada, Zitinha. Você é sempre generosa com meus escritos.

  8. zita de moura leal
    16/04/2013 at 19:21 #

    suas belas histórias de lembranças de tias me emocionaram, Cleíta