Cléa Sá

Andanças

O modo como ele chegou à casa do Velho era pouco capaz de inspirar confiança.

Estava atravessando o rio Tocantins, na altura de Marabá na época das cheias, que é tempo que o rio incha, cresce, vira mar, invade as cidades, toma posse das casas. O barqueiro aconselhou: – “Moço, acho melhor tirar a roupa que tem hora que este rio fica que nem mar. Quando vem este vento que está começando agora, o melhor é se preparar para nadar, caso a balsa emborque”. E assim ele fez. Tirou a roupa, fez uma trouxa, dentro colocou o dinheiro e os documentos e ficou só de ceroula, que esta história é antiga e se passa nos anos 20, por volta de 1925.

O barqueiro tinha razão. O rio ficou valente, o vento batendo forte levantava onda de fazer medo e por fim, a balsa, feita às pressas para a travessia, desmanchou-se. Por sorte já se avistavam as margens do rio e lá se foram os dois nadando, tentando ir ao mesmo rumo, mas a correnteza forte os separou.

Quando o rapaz sentiu que dava pé e parou para descansar, cadê o barqueiro? Estava sozinho em águas estranhas, sem dinheiro e quase nu. Ficou ali, parado, pensando na dificuldade de sua situação, que já não vinha boa há algum tempo.

A coisa começara quando tivera de fugir de madrugada, um mês atrás. A bem da verdade começara mesmo um pouco antes, quando chegara a Barra do Corda um emissário da Coluna Prestes. Os revolucionários estavam em Carolina e queriam o apoio dos simpatizantes. Precisavam de dinheiro. E de cavalos e mantimentos. Tudo o que pudesse ser arrumado. Os graúdos da cidade se reuniram, confabularam e tiveram medo. Viram que era melhor mandar o dinheiro do que ter a cidade invadida.  As notícias que corriam não eram boas.  E quem iria ao encontro do emissário com o dinheiro? Se ele foi escolhido ou se ofereceu, não sei dizer. Sei que era novo, simpatizava com os revoltosos, já tinha trocado uma ou duas cartas com o tenente João Alberto, era o homem certo para a missão. Foi e voltou em paz, mas foi denunciado ao Exército como um perigoso revolucionário. Quem o denunciou, não soube nunca. Mas foi alertado e aconselhado a fugir que o viriam prender, por um tenente, colega de maçonaria. Brasileiramente.

Fugiu. Em um trecho da fuga, encontrou e acompanhou os companheiros da Coluna, mas com poucos dias desanimou. Viu que não dava para revolucionário.

Anos depois, quando do golpe de 64, diria aos filhos meio brincando, meio sério: – “Vocês não sabem o que é esse negócio de revolução. Andei um tempo metido nisso e com pouco tempo não sabia de quem devia ter mais medo, se das forças que nos perseguiam, se dos próprios companheiros. Arrancavam até os dentes de ouro dos defuntos”.

Para ele, este mexer com defunto fora o fim. Abandonara a Coluna e agora estava ali, nos confins do Pará, sem saber o que fazer.

Nisso, ouviu vozes femininas e viu que estava em um “porto” de mulheres. Aí foi a prova de fogo. Como quase nu, dentro da água, convencer as moças a chamar um homem para parlamentar, um pai, um irmão, alguém que o pudesse ajudar? Tanto falou que conseguiu.

Foi quando veio o pai das moças, que ele sempre chamava de O Velho. Foi uma longa explicação. A certa altura, o Velho chamou as filhas que estavam no maior alvoroço e disse: – “Vão para casa e mandem uma muda de roupa para este rapaz”. O Velho tinha acreditado nele, respirou aliviado.

Aí começou um tempo bom de descanso de tantas aventuras e desventuras. O barqueiro apareceu com suas roupas e documentos e ele gozava da simpatia do Velho. Proseava com as pessoas do lugarejo, comia bem que a casa era farta e de noite faziam uma roda na porta da casa e ele contava histórias de Trancoso, de olho nas moças para ver o efeito que faziam. A minha impressão é que andou se interessando por uma delas, mas respeitosamente, que casado já era e deixara mesmo a mulher esperando o primeiro filho.

Uma tarde descansava debaixo de uma árvore pensando que era hora de voltar, seu filho já devia ter nascido. O pensamento voou, foi para longe, andou por terras, cruzou rios, chegou a casa, viu o quarto, um berço. Quis olhar o filho, debruçou-se sobre o berço, levantou o cortinado… Foi tirado do sonho por uma voz.

Decidiu-se. Vou voltar, nem que seja preso. Resolução tomada foi questão de dias. Agradecimentos, despedidas, fim das histórias.

Voltou e o perigo tinha passado. Retomou a vida no ponto que deixara.

Uma noite, conversando, a mulher lhe disse: – “Pensei que nunca mais fosse te ver com vida. Entrei aqui no quarto e te vi debruçado sobre o berço. Achei que tivesses morrido”.

Ele ficou calado, impressionado com o fato. Então eu estive aqui mesmo? Não foi só o pensamento, foi uma visão. Terei andado tantas léguas com o pensamento? Há muita coisa mesmo que não se consegue explicar.

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