Cléa Sá

A avó

Nos meus medos de infância, era para minha avó que corria.

Minha avó era uma mulher à moda antiga. Vestia sempre saia comprida e casaquinho de mangas abaixo dos cotovelos variando a cor ou o tecido, nunca o modelo. O cabelo enrolado formava um coque no meio da cabeça preso por um pente e quando ela o soltava, o que só acontecia quando saía do banho, era bonito, longo e encaracolado. Lembro-me de ficar olhando a minha avó, toalha de algodãozinho feita por ela mesma nos ombros, penteando os cabelos com seu pente de osso, sem se olhar em espelho.

Não era carinhosa, a nossa avó, mas era boa e era nela, no seu colo, no seu cheiro, que eu buscava refúgio contra o medo. Ela chamava para a merenda, tinha sempre guardado para nós aquilo do que mais se gostava, resmungava, nos chamava de “não sei que diga” – seu mais feio palavrão-, mandava tomar banho, mandava rezar. Mas estava sempre em casa, não saía nem para ir a Igreja, e perto dela não havia perigo, nem desse nem de outro mundo.

Parecia-nos que ela sempre fora assim, aquela velhinha vestida sobriamente, coque na cabeça, as chaves dos armários no bolso, pois tinha uma desconfiança constante das empregadas, sempre prontas para roubar, segundo ela. Além de implicar com as empregadas, tinha raiva de índio, a quem chamava de traiçoeiros e com quem não queria conversa. Tinha lá suas razões. Estava de resguardo do parto de um filho, na casa dos pais, em 1901, quando acontecera o chamado “barulho dos caboclos”.

Esse “barulho dos caboclos” volta e meia aparecia nas conversas dos mais velhos e nos deixava, crianças, mortos de medo. Ficou-me alguma coisa e pesquisei outras.

Os frades e freiras capuchinhos chegaram da Itália por volta de 1895 e iniciaram a catequização dos índios Guajajaras na região que ficava entre Barra do Corda  e Grajaú. Começaram a Missão: construíram capela, construíram escola, construíram convento. Ergueu-se um povoado ao redor da missão que pouco depois já era a vila de Alto Alegre. Na escola, estudavam os pequenos índios, meninos e meninas da aldeia, e também as crianças da vila e mesmo mocinhas das fazendas ou vilas próximas. Era um regime rígido de internato para as meninas de família. Já os pequenos índios estudavam e trabalhavam.

Os Guajajaras quase não viam mais os seus curumins, enredados na disciplina dos frades, e começaram a chamá-los de volta. Era a época da iniciação dos jovens nos costumes da tribo, tinham de aprender a ser adultos. Deviam permanecer por semanas nas ocas para instrução, decorar os cantos tribais, participar das provas de virilidade, uma delas era  carregar um tronco de madeira pesadíssimo e sei lá o que mais. As meninas, por sua vez, tinham o seu próprio aprendizado a fazer e também era época de escolherem  o futuro marido. Enfim, os índios queriam os filhos de volta e os frades e freiras não atendiam ao chamado, não os deixavam ir à aldeia. Isso, segundo consta, foi o estopim da revolta. Contam que houve aviso do que os índios estavam planejando. Volta e meia um índio mais chegado aos religiosos tentava alertá-los, mas eles ou não entenderam ou não quiseram acreditar.

Pela manhã do dia 13 de março daquele ano, os índios, comandados pelo cacique Cauiré Imana, também chamado João Caboré, chegaram cedo, cercaram a vila, entraram nos conventos e mataram todos os frades e todas as freiras e seguiram matando. Da população de Alto Alegre, poucos escaparam. E dos arredores também. Contam que os índios levaram três moças brancas, internas da escola. Os brancos se organizaram e saíram atrás dos índios em missão de vingança. Dias depois encontraram duas das moças e as resgataram.  A que se chamava Perpétua, de apelido Perpetinha, não retornou jamais. Sertanejos e viajantes que andavam pelas matas encontravam, riscadas em troncos de árvores, a frase “por aqui passou a infeliz Perpetinha”, ou “a infeliz Perpétua Moreira passou por aqui”. E contam mais, que muitos anos depois, um homem, comerciante ou funcionário do Serviço de Proteção aos Índios, não sei ao certo, encontrou, em uma aldeia, uma velha índia de pele e olhos claros. Achou que era a Perpetinha. Tentou falar com ela, não conseguiu. Ela, a mão na boca para esconder a falta de dentes, entrou numa das ocas. Ficou por isso mesmo. Já não era mais a Perpetinha.

Minha avó salvou-se. A família foi avisada em tempo por um dos que escaparam da chacina e fugiu para  Barra do Corda, coisa de algumas léguas. Escaparam com vida e sem nada, que tudo foi perdido na fuga, roça, casa, utensílios. Daí o medo e a raiva de índio que permaneceram com ela até a velhice.

Minha avó não sabia ler ou escrever, mas sabia contar histórias, matar galinha e aparar o sangue para fazer “galinha ao molho pardo”, fazer doces em tachos de ferro, curar doenças com chás, fazer agrado, tomar conta da casa. Tinha um baú chamado por ela de “a vida do rei”, porque, conforme ela acreditava, na vida dos reis tinha de tudo.  E assim era.  No baú tinha toalha nova, caixa de sabonete para uma necessidade, linha de toda cor, agulha, tesoura e tesourinha, e até, para nosso espanto, em um dia que faltou gás de cozinha, já depois de sua morte, achamos um fogareiro a álcool, novo em folha, ainda na caixa.

À medida que íamos crescendo, fomos descobrindo que a avó não fora sempre aquela velhinha. Tinha sido jovem e bonita. Ela quase não falava de si, uma palavra ou outra. Um dia falava em uma irmã, resmungando esconjurava um nome de homem, quando escrevia para os filhos falava em algum parente. Assim, de pedacinho em pedacinho, contado por ela ou por minha mãe, fomos sabendo um pouco da sua história.

Quando jovem, casara com um homem que a levou para o Pará, no auge do ciclo da borracha. O marido fez fortuna. Ela, quando ia a Manaus, vestia seda e tinha jóias. Na mata, perto do seringal, tinha uma grande casa feita de toras de madeira. Quando os homens saíam para a labuta, as mulheres se revezavam, fuzil nas mãos, para se defender dos índios. Era outra lembrança que reforçava  o seu medo de índio.

Esse tempo não durou muito. Enviuvou e voltou rica para sua terra. Casou de novo, teve dois filhos, e aí é a parte mais triste. O marido, esse segundo marido tão querido, ficou doido, doido de pedra, tinha de ficar amarrado em um dos quartos da casa, era perigoso quando solto. Queria matá-la, matar os filhos. Ela gastou tudo o que tinha com a doença dele, não deu jeito. Ele foi mandado de lancha pelo Rio Corda para o hospícioem São Luísdo Maranhão, amarrado, coitadinho! Lá morreu, sem sarar.

Ela ficou só e pobre, criando os filhos. Costurava para fora, era como garantia o seu sustento e dos filhos, e cuidava de doentes sem ganhar nada, só por gosto e bondade.

Minha mãe entrou bem mais tarde na sua vida, quando os seus filhos já estavam adultos e independentes. Filha de uma sobrinha sua, que morreu pouco depois do parto, foi criada por ela e creio que foi a sua última e definitiva paixão.

E foi assim, como em uma das suas histórias encantadas, que ela virou nossa avó e viveu conosco por toda vida. 

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