Cléa Sá

Uma vida em segredo

Na última quarta-feira, dia 24 de junho, nos reunimos em torno do livro Uma vida em segredo, de Autran Dourado. Uma bela noite, adiante-se. Estávamos Bete, Ceissa, Cléa, Heloisa, Inês, Josenita, Regina, Roberto, Tadeu, Vilmar e Zita.

Começamos como de praxe tomando nosso vinhozinho do Porto, comendo guloseimas e botando os assuntos em dia. Quando todos chegaram, iniciamos a discussão sobre a singela história de Biela, que no decorrer do debate se mostrou bem cheia de singularidades.

A novela traça a história linear de uma moça nascida e criada na roça que com a morte do pai vem viver na cidade na casa de um primo, seu tutor. É Biela. Sabemos dos acontecimentos pelo modo como os parentes o veem e sabemos também pela própria Biela vivenciando a sua vida. Primeiro a vemos como um “bicho do mato”, assustada com o ambiente onde passa a viver; depois vemos que ela se esforça para se adaptar, tem medo dos primos meninos, não sabe usar os talheres às refeições e se envergonha, sente certo alento ao acompanhar a prima Constança que vê como uma princesa.

A família tem planos para ela, quer que se apresente como a moça rica que é e para tanto a ataviam de sedas e veludos. Arranjam-lhe até um noivo. E é com a traição do noivo, que Biela, depois de muito se envergonhar, dá uma guinada na vida. Abandona as vestes da cidade, volta aos seus velhos vestidos da roça e assim retoma aquele pequeno núcleo tão seu, onde “Voltava-se toda para um centro de força, para uma pequena semente nas sombras que se adensavam, para o oco do peito, para o miúdo coração desamparado” e era ali que ouvia ainda o canto da mãe, o rumorejar do regato, o monjolo, motivo constante que a acompanha por toda vida.

Quem é Biela? Para alguns de nós, uma moça semianalfabeta, ingênua, um pouco bronca. Para outros, uma moça simples, capaz de pequenas ações e pequenas conversas, mas desejosa de amar, tanto que ela tenta, primeiro amar a prima Constança, depois a prima Mazília, que lhe dá a conhecer a música. E já no fim seu cachorro Vismundo.
Por falar em Vismundo, uma dos mais belos trechos do livro é sua aproximação com o cachorro tão desamparado quanto ela, talvez também vindo da roça e como se formam os laços de uma bela amizade.

Biela, por ser simples, não foge das contradições presentes em todos nós: tem raiva, ressentimentos, se enleva com a música, pensa conversar com Deus. Para alguns de nós, sua vida espiritual é intensa e seu desapego dos bens terrenos e seu amor pelos desvalidos e pelas pessoas simples como ela, é mais um indício disso, embora seja uma religiosidade sem caráter religioso.
Falou-se também no estilo do autor, que frequentemente usa figuras de linguagem para tornar o texto poético e ao mesmo tempo escreve sobre um tempo e um lugar que não localiza, mas que nos leva a um Brasil remoto, antigo, talvez em vias de desaparecer.

Algumas considerações: Não havia na história nenhuma pessoa má, mas, segundo alguns, havia crueldade. O total desconhecimento do outro, o não querer saber. Também foi dito que talvez haja entre nós, letrados, o total desconhecimento do mundo das pessoas que não pertencem a este universo e talvez tenhamos certo menosprezo por essas pessoas. Será que imaginamos o mundo, as pessoas, os sentimento apenas de pessoas que como nós têm o domínio da linguagem?

Dessas considerações passamos a buscar no nosso universo pessoas que de certa forma tem alguma coisa da Biela. E lembramos pessoas com as quais convivemos, às vezes intimamente, e jamais soubemos quase nada dos seus sentimentos, das suas vidas. Lembramos figuras de tias apagadas, primas, empregados. Há muito que refletir. Noé deu um golpe de mestre ao nos apresentar a Autran Dourado e nos fazer debruçar sobre esta pequena vida em segredo, da qual só se sabe o nome completo no final da história ao assinar o testamento feito pelo tabelião: Gabriela da Conceição Fernandes. Um livro primoroso que arrancou lágrimas de um de nós.

Passamos então à nossa mesa de café, que estava uma fartura só. E enquanto comíamos e bebíamos contamos das nossas leituras.

Bete –Uma vida em segredo, Autran Dourado e A caixa preta – Amós Oz;
Ceissa – As sombras das romãzeiras – Tariq Ali, O castelo de vidro, Jeanette Walls, As nuvens, Juan Jose Sauer;
Cléa – Os espólios Poynton, Henry James, Os papéis de Aspern, Henry James, Anel de vidro, Ana Luisa Escorel, Uma vida em segredo, Autran Dourado, O longo adeus, Raymond Chandler, Sete anos bons, Etgar Keret, e estou lendo O livro negro, Orhan Pamuck, A dança dos dragões, George R. Martin, Ensaios de Montaigne;
Heloísa – A montanha mágica, Thomas Mann, Pais e filhos, Turgueniev;
Inês – Afirma Pereira, Antonio Tabucchi, Os embaixadores, Henry James, Norwegian Wood, Murakami;
Josenita – Vai mandar por e-mail
Regina – Judas, Amós Oz;
Roberto – Mundo escrito e mundo não escrito – Italo Calvino;
Tadeu – Sete anos bons, Etgar Keret, Toda luz que não podemos ver, Anthony Doerr;
Vilmar – Em plena escuridão – Robert Crais, O projeto Rosie, Graeme Simsion, Lugares de passagem, Elly Eriffiths, As nove lições, Kevin Alan Milne;
Zita – Garoto Zigue-zague, David Grossman.

Passamos a escolher o livro para a próxima reunião. Sugestões:
O projeto Rosie, Graeme Simion – 6 votos
O meu irmão – Afonso Reis Cabral – 1 voto
Vermelho amargo – Bartolomeu Campos de Queiroz –
Morreste-me – José Luiz Peixoto – 4

Assim, batido o martelo. O livro é O projeto Rosie e a nossa reunião será na primeira semana de agosto, exatamente no dia 5.

Encerro aqui este relato esperando ter sido fiel pelo menos em parte ao muito que foi falado.
Cléa

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