Cléa Sá

Uma rua de Roma

Na última quarta-feira, dia 21 de outubro, nos reunimos para discutir  o livro “Uma rua de Roma”, de Patrick Modiano,  prêmio Nobel de 2014. Estávamos Bete, Carmen, Ceissa, Cléa, Luisinha, Heloísa, Inês, Josenita, Regina, Roberto, Virgínia e Zita.  Como de praxe, começamos por matar saudades, nos inteirarmos das novidades e  falar de filhos e netos enquanto tomávamos o nosso vinhozinho do Porto. Depois passamos ao livro.

De início o autor foi recebido com críticas: um autor menor, não se entendia por que tinha ganhado o Nobel, não passava nenhuma emoção, etc. etc. Mas à medida que a discussão prosseguia, começamos a ver outros aspectos e mesmo qualidades no livro: bem escrito, linguagem acessível,  criava em poucas palavras personagens que nos emocionavam e conseguíamos imaginar suas vidas por  aqueles  poucos parágrafos.  Assim, o fotógrafo homossexual que fica ouvindo um telefone há muito desativado procurando escutar a voz do assassino de seu amante, o velho pianista casado com uma mulher mais jovem que chega em casa cansado e não pode entrar pois ela está dando uma festa, etc. etc.

O enredo é muito semelhante ao de um policial clássico. Um homem perde a memória e caridosamente outro homem, que se torna seu amigo, lhe arranja uma identidade e ele passa a ser Guy Roland. Mas o não saber quem foi é angustiante e ele começa a buscar o seu passado procurando encontrar  a sua verdadeira identidade. É como um labirinto ou um puzzle. Uma pessoa leva à outra, a história é rememorada aos pedaços e vez por outra um novo personagem fala e preenche um espaço que estava vazio. Essa busca mostrada pelo autor nos levou a pensar em vazios que também temos e gostaríamos de preencher. Dois depoimentos nesse sentido foram feitos e nos ajudou a entender ainda mais o nosso Guy Roland. Chamou-nos atenção também o nível do seu desespero: sua necessidade de saber sua identidade o levava a embarcar em todas as possibilidades que iam aparecendo no decorrer da sua investigação e assim ele ia sendo Freddy e poderia ter amado  Gay, depois Pedro McEnvoy  ou Jimmy Stern.

Outra abordagem foi feita: a história não é apenas a história de um individuo mas é também e principalmente a história do próprio país. A França, 20 anos após o fim da guerra, ( a história se passa em 1965) busca esquecer o passado recente: sua humilhante derrota para os alemães, a ocupação nazista, as perdas sofridas, a colaboração com o inimigo… Há muito mesmo para esquecer. E ela esquece, teme recordar e cria histórias mais fáceis ou confortáveis e nelas embarca. O autor em nenhum momento, como foi observado por um leitor atento, fala da guerra, dos alemães, de judeus, da ocupação,  mas o clima de todo o livro é sombrio e triste sem dúvida mostra a guerra e o pós-guerra com todo o seu horror.

Em resumo muitos gostaram do livro, outros nem tanto, mas após a discussão ele foi visto com melhores olhos por quase todos, embora alguns renitentes opositores  continuassem sem gostar tanto do autor como do livro.

Uma observação antes de passar à lista das nossas leituras: Estamos mal no quesito homens. Roberto era o único varão presente. Tadeu passou e não pode ficar pois tinha um compromisso muito sério (mas me deixou um lindo vaso de flores. Obrigada, Tadeu!),   Noé foi pra Minas, Andrés se zangou, Vilmar sumiu. E agora, José?

Vamos às leituras:

Bete – As pequenas virtudes – Natália Ginzburg, Hibisco roxo – Chimamandan Adichie, A garota no trem- Paula Hawkins, As miniaturas- Andrea Del Fuego;

Carmen – Guia do Uruguai;

Ceissa – O último suspiro do mouro –  Salman Rushdie, No teu deserto – Miguel Sousa Tavares, Contos exemplares e Poemas de Sofia de Mello Tavares, Deste mundo e do outro e Claraboia -– José Saramago;

Cléa – Para você não se perder no bairro, – Patrick Modiano,  Pssicam –  Edyr Augusto, Cinquenta anos esta noite – José Serra, Ventos da quaresma – Leonardo Padura, A entrega – Denis Lehane, A garota no trem – Paula Hawkins, A garota na teia de aranha – David Lagercrantz,  Novelas exemplares- Cervantes, A vítima perfeita – Sophie Hannah;

Luisinha – As pequenas virtudes – Natalia Ginzburg;

Heloísa – Nosso homem em Havana – Graham Greene, Fim – Fernanda Torres, Reinações de Narizinho – Monteiro Lobato;

Inês – Pequenas virtudes e a Garota no trem;

Josenita – A trégua – Mario Benedetti, Um coração simples – Flaubert;

Regina – Desumanização – Valter Hugo Mãe, A balada de Adam Henry – Ian McEwan;

Roberto – Trem noturno para Lisboa – Pascal Mercier, Autobiografia poética – Ferreira Gullar, O uso da poesia e o uso da crítica – T.S. Eliot;

Vilmar- O caso, Lee Child; Sem aviso, David Rosenfeld; O bangalô, Sarah Jio e Segundas chances, Nick Trout

Virgínia – Sono- Harumi Murakami, Morreste-me – José Luís Peixoto, A função Delta – Rosa Montero, Submissão – Michel Houellebecq, As vozes de Chernobyl- Svetlana Alexievich, O Leopardo – Romasi di Lampedusa;

Zita – Desumanização – Valter Hugo Mãe, Electra, Hipólito – Eurípedes, Diário de Bitita – Carolina Maria de Jesus, Mrs. Dalloway – Virginia Woolf.

Passamos então à escolha da nossa próxima leitura. Indicados e votos:

O Leopardo, de Lampedua recebeu 6 votos, Sono, de Murakami, recebeu 5 votos e Herege, de Leonardo Padura, 1 voto. Feita uma rápida pesquisa, descobrimos que O Leopardo não está à venda nas livrarias da cidade, consequentemente a livro a ser lido passou a ser Sono.

A data da reunião será marcada posteriormente, depois de submetida à apreciação de todos.

Adendo: Pelos e-mails que tenho lido,  o Tadeu passou o livro O leopardo. Perguntas: – Será que todos terão acesso?   E quem não lê pelo tablet? Como ficamos, O Leopardo ou Sono? Pronunciem-se!

 

 

 

2 Responses para “Uma rua de Roma”

  1. Dina Brandão
    13/11/2015 at 17:09 #

    Me falaram que Herege de Leonardo Padura é leitura indispensável.

    • Cléa Sá
      Cléa Sá
      15/11/2015 at 17:34 #

      Estou lendo no momento. é bom mesmo
      Um abraço