Cléa Sá

Sempre a mesma neve e sempre o mesmo tio

Caros companheiros de leitura:
Missão difícil esta que me impus: relatar nossas reuniões. Elas são tão ricas de informação e tão particulares nas opiniões que não é fácil rememorá-las e repeti-las. Sempre vou ficar devendo. Mas acho um excepcional exercício para mim, para a cabeça não parar de funcionar, e me dá muita alegria lembrar o que aconteceu, tal a riqueza de conhecimentos que elas sempre nos trazem, bem como para constatar o prazer que sentimos em estarmos na companhia uns dos outros. Vamos lá, então:
As primeiras manifestações sobre o livro da Herta Müller foram de desagrado. O livro, que é uma reunião de escritos – discursos, palestras, textos de homenagens- (para ocasiões diversas como foi depois lindamente explicado, destinado a ser ouvido ou lido por públicos diferentes), foi considerado um aproveitamento do editor da fama da autora por receber o prêmio Nobel e um mal serviço à ela. As repetições frequentes e o sentido de confissão presente nos textos foram considerados particulares demais e próprios para os ouvidos de um psicanalista. Parece que o livro, por não ser ficção, desapontou a alguns, mas seu caráter poético e as grandes definições/explicações quanto à teoria literária agradaram. Para outros, no entanto, independente de ser ou não ficção, o livro agradou em cheio. Uma outra leitura, a das condições políticas de um país dominado por duas ditaduras, tocou profundamente a todos nós. Muitas relações foram feitas com o momento em que vivemos, com as discussões em torno da Comissão da Verdade, e experiências vividas no período da ditadura que sofremos foram narradas e compartilhadas. A escrita da autora, a sua capacidade de trabalhar as palavras, modificá-las, extrair novos sentidos, achar frases perfeitas para transmitir sentimentos e explicar situações, despertaram uma grande admiração. E até alguma inveja foi confessada. Alguns trechos significativos foram lidos, exemplificando o porquê do gosto, e também aqueles que nos chocaram pela crueza dos acontecimentos narrados. Também a sinceridade da autora foi destacada. Concluimos pela beleza da escrita de Herta Müller.
Em volta da mesa, a conversa tomou outros rumos, talvez até mais interessantes. Carmen falou de uma entrevista que assistiu com o professor Silvo Meira na qual ele aponta as transformações que o mundo está vivendo e as muitas que ainda nos esperam e Vilmar falou das experiências e dos projetos que estão em curso e que são de assombrar: utilizar a lua como um reservatório de alguma coisa, atrair meteoros para alguma outra coisa, ai, não! impossível reproduzir. Carmen e Vilmar , escrevam o que vocês disseram que vale a pena registrar. Tadeu falou também de um livro surpreendente, Os sonâmbulos, escrito por Arthur Koestler, uma obra do início dos anos sessenta.

Agora, aos livros lidos:

Andrés – A forma difícil, Rodrigo Naves; Entre poéticas e políticas, Renata Azambuja, Homem em queda, Don De Lillo;

Bete – em fase de entressafra de um livro de Proust para outro;

Carmen – Homem em queda, Don De Lillo e Trabalhos de amor perdidos , Jorge Furtado;

Ceissa – O último voo do flamingo, Mia Couto; Histórias abesonhadas, Mia Couto e sobre Budismo;

Cléa – O chapéu de Vermeer, Timothy Brook; A dama e o unicórnio, Tracy Chevalier, Poemas místicos Divan de Hhams de Trabiz, Jalal ud-Din RUMI;

Josenita – Carta a meu filho, Betty Millan, Toda poesia, Paulo Leminski;

Nilma – Sempre a mesma neve e sempre o mesmo tio, Herta Müller;

Noé – Howard Jacobson  A questão Finkler;  Toda poesia, de Paulo Leminski;  A humilhação, de Philip Roth; Eichman em Jerusalém – um relato sobre a banalidade do mal, da Hanna Arendt;Perversos, amantes e outros trágicos, de Eliane Robert Moraes ; O olhar da mente, do Oliver Sacks. e Poesia completa, do Manuel de Barros.
Roberto – Pulso, Julian Barnes e continua com livros citados anteriormente;

Tadeu – Mel de leão, David Grossman; Inferno Dan Brown; Pars Vite Et Reviens Tard, Fred Vargas;

Vera – O chapéu de Vermeer, Timothy Brook; O cisne de prata, Benjamin Blake, O jantar errado, Ismail Kadare; Antes do baile verde, Lygia Fagundes Telles;

Vilmar – A história da matemática, Robert Boyle; Num Passe de Mágica – Joy Fielding, Juramento de Honra – Michael Palmer; As Crianças de Willesden Lane – Mona Golabel e Lee Cohen; e Gelo em Chamas – David Lyons.

Virgínia – As irmãs Makioka – Tanizaki, A infância de Jesus – Coetzee, O século das luzes – Carpentier, Dois rios – Tatiana Salem Levy

Zita – Cuentos e Octaedro – Julio Cortázar.

Toda essa bela conversa se deu enquanto tomávamos o nosso café com bolo, e tinha muitos, todos deliciosos.
Aí passamos à escolha do livro para o próximo mês: Sugeridos apenas dois: Homem em queda, Don De Lilli e Pulso, de Julian Barnes. A votação deu o seguinte resultado: Homem em queda, 9 votos, Pulso, 2 votos e 1 abstenção. Assim, na nossa próxima reunião, a ser realizada em 26 de junho, última quarta-feira do mês, o livro é Homem em queda.
Assim encerro o relato desta bela reunião realizada no dia 29 de maio e espero que os caros companheiros a complementem no que acharem necessário.
Tchau e bênção!

Ficha técnica
Livro: Sempre a mesma neve e sempre o mesmo tio
Autor: Herta Muller
Tradutor: Cláudia Abeling
Editora: Globo
Assunto: Literatura estrangeira
Preço:R$ 34,90

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