Cléa Sá

Os velhos também querem viver

Dia 28 de abril de 2015

Uma bela noite a desta terça feira quando nos reunimos para conversar sobre Os velhos também querem viver, de Gonçalo M. Tavares e Alceste, de Eurípedes. Estávamos Andrés, Bete, Cléa, Inês, Josenita, Luisinha, Noé, Regina, Roberto, Tadeu, Vilmar e Zita e o nosso encontro transcorreu no nosso clima costumeiro de amizade, aceitação e alegria. E de inteligências borbulhantes. Tão inteligentes e tão borbulhantes todos os presentes que se torna cada vez mais difícil a esta autonomeada relatora a tarefa de contar o que ocorreu. Mas enfrentemos a tarefa, com ânimo e galhardia.

Começamos como sempre bebericando o nosso vinhosinho do Porto e conversando amenidades nem tão amenas vez que falamos de coisas nossas, de nossas coisas. Mas ao se completar o quórum iniciamos a discussão sobre os livros escolhidos.

Por que situar a trágica história de Alceste em nossos tempos e em Sarajevo? A resposta a esta pergunta foi o primeiro fio que orientou a discussão. Saravejo foi a cidade que sofreu o mais violento, sangrento e duradouro cerco de nossos tempos. Gonçalo M. Tavares recria a tragédia de Eurípedes e transforma o drama particular de Admeto em um drama coletivo, do qual todos nós participamos. Para alguns, a situação do povo de Saravejo é a mesma situação das muitas tragédias que ocorrem em várias partes do nosso mundo atual: das guerras em países da África e do Oriente aos fugitivos desses conflitos que emigram e vem morrer nas águas do Mediterrâneo. E o coro da tragédia que acompanha e comenta os acontecimentos são os organismos internacionais que apenas olham, lançam comunicados, mas de regra nada fazem para solucionar tais conflitos, submetidos à lógica da política e dos interesses de potências poderosas.

Passamos à outra linha da discussão: vida e morte. Valor da vida, inevitabilidade da morte na falta de deuses e semideuses que dela nos livrem. Aí retornamos aos personagens da tragédia: Admeto é fraco, sequioso da vida, aceita sem nem pestanejar o sacrifício de Alceste e ataca duramente os pais por não lhe darem suas vidas; Alceste ama Admeto e lhe dá o seu bem maior, a própria vida, mas ao chegar a hora fatal estabelece suas exigências e se torna toda poderosa, determinando a vida dos que ficam, marido e filhos; e Feres que em sua dura fala contesta Admeto e mostra o inegável valor da vida, presente também para os velhos. (Nós, os velhos, assinamos em baixo do que diz Feres). E a casa de Admeto após a morte de Alceste continua triste e até onde alcança a peça assim permanece, e só no final, ao retornar Hércules com a mulher envolta em véu, se possa entrever um recomeço. O que contraria as promessas feitas à Alceste. Ai! Admeto, em cujas fragilidades e ambiguidades nos reconhecemos, seres humanos frágeis e mortais que somos.

Falamos ainda de sacrifício por outrem e isso nos levou a Cristo e sua noite de dor no Getsêmani. Também falamos como os deuses gregos foram criados à semelhança dos homens, diferentemente da crença atual de que os homens são criados à semelhança de Deus e muitas considerações de valor foram feitas sobre este tema que infelizmente não consigo reproduzir. Está aberta a complementação a este relato. Muitos trechos do livro foram lidos e se revelaram ainda mais bonitos e sábios do que quando os lemos sozinhos.

Passamos em seguida à nossa mesa de café. Só coisa boa e gostosa. E festejamos os aniversários de Luisinha, Josenita e Roberto com parabéns cantados, velinhas assopradas e um bolo trazido pela Bete. Tudo de bom!

E passamos às leituras:

Andrés – Os velhos também querem viver, Sangue no olho, de Lina Meruane;
Bete – Os velhos também querem viver e Alceste, Noturno indiano e Afirma Pereira, de Antonio Tabucchi, Os judeus e as palavras, de Amoz Oz e Fania Oz-Salzberger;
Cléa – Os velhos também querem viver e Alceste, A rainha dos cárceres da Grécia, de Osman Lins, Vozes, de Arnaldur Indriadson, Azazel, de Youssef Ziedan, Queda de gigantes, Ken Follet;
Inês – Sono, Harumi Murakami, O incolor Tsukuru Tazaki e seus anos de peregrinação, Murakami, Caçada mortal, Lawrence Block, A neblina do passado, Leonardo Padura;
Josenita – Os velhos também querem viver e Alceste;
Luisinha – Os velhos também querem viver e Alceste, Garcia Lorca definitivo, Ian Gibson, Um defeito de cor, Ana Maria Gonçalves;
Noé – Garoto zigue-zague, Duelo, de David Grossman, A mãe e o filho da mãe, O menino e o pinto do menino, de Vander Piroli, Os melhores contos de Aníbal Machado, O que Jesus quis dizer, Gary Wills, Para sempre Alice, Lisa Genova, Os velhos também querem viver, Alceste, Os judeus e as palavras, Amós Oz e Fania Oz-Salzberger, Conversas com Woody Allen, Eric Lax, (Noé, faltou o último que não entendi);
Regina –Os velhos também querem viver e Alceste, Subliminar, de Leonard Mlodinov;
Roberto – Shakespeare: o que as peças contam- Tudo o que você precisa saber para descobrir e amar a obra do maior dramaturgo de todos os tempos , Barbara Heliodora, Introdução aos estudos literários, Eric Auerbach;
Tadeu – Judas, Amós Oz, A odisseia de Penélope, Margaret Atwood;
Vilmar – Cópia Imperfeita – Mary Clark; Nascido em um dia azul – Daniel Tammet; Um lugar frio e solitário – Sara Hinry; Dewey – Vicki Myron; Irmãs – Patricia MacDonald e Arquipélago – Monique Roffey;
Zita – As vozes do deserto, Nelida Pinon, A teoria geral do esquecimento, José Eduardo Agualusa.

Os livros indicados para o próximo mês foram:

Afirma Pereira, de Antonio Tabucchi
Sangue no olho, Lina Meruane
A última volta do parafuso, Henry James
Uma vida em segredo, Autran Dourado.
Votação realizada, eis os resultados:
Afirma Pereira, 5 votos, Sangue no olho, 3 votos, A última volta do parafuso, 2 votos, Uma vida em segredo, 1 voto. E uma abstenção. Assim é Afirma pereira, de Antonio Tabucchi o nosso livro para maio, reunião na última quarta-feira, dia 27.

Sentimos falta dos que não puderam vir. Melhoras, Virgínia.

Cléa

Sem comentários ainda.