Cléa Sá

O sentido de um fim

Caros companheiros de leitura:

Ontem nos reunimos para discutir O Sentido de um Fim, de Julian Barnes, e tivemos uma noite excepcional. Estávamos reunidos Andrés, Bete, Carmen, Ceissa, Cléa, Josenita, Luisinha, Nilma, Roberto, Tadeu e Virgínia e sentíamos um sentimento muito vivo quanto a estarmos completando quatro anos de leitura de bons livros e de boas discussões. Parecia inacreditável que já fizesse tanto tempo. Tentamos recuperar muitas coisas que vivemos: quando cada um de nós entrou no grupo? A ordem dos livros lidos está certa? Errada? Falta algum? De qual livro gostamos mais?  Da data em que tinha entrado no grupo ninguém se lembrava, mas todos se lembravam do livro discutido em sua primeira reunião. Vimos então que seria possível reconstituir a nossa história e Tadeu, criativo como sempre, é quem vai trabalhar nesse sentido. Fará um “boneco”, diz ele, e todos nós acrescentaremos aquilo de que nos lembrarmos. E quem sabe sairá um caderno com desenhos e tudo? Pensamos também em fazer uma comemoração de data tão expressiva. E já fixamos a ocasião: em novembro, quando faremos a última reunião deste bendito ano e que teremos a presença de Noé, a essa altura de volta ao nosso convívio. Assim, aviso aos navegantes: preparem-se, organizem-se para a reunião de novembro, a ser realizada na última quarta-feira do mês, dia 28. Ninguém pode faltar, viu Zitinha? Viu Vilmar? E, além de discutirmos o livro, do qual falarei mais adiante, teremos uma noite festiva, na qual mostraremos os nossos talentos, seja falando alguma coisa (Vera, pelo telefone, me disse que fará um discurso. Imaginem o discurso de um poeta?) cantando, dançando, dizendo poesia, enfim, fazendo aquilo que nos der na telha ou não fazendo nada. Só conversando.

Passemos agora ao livro que provocou uma bela discussão e gerou dúvidas, interpretações diversas e alguma inquietude, por que, de certa maneira o livro poderia ser sobre nós mesmos. Trata da vida, das aspirações da juventude e de suas promessas e da não realização da maioria dos sonhos dessa época. O pano de fundo de todo o livro é a memória e o tempo. A história vista pela ótica do narrador muda em função de fatos que vão se revelando no correr da trama e não podemos confiar se o que ele conta é verdadeiro ou não, pois a sua memória não é confiável. Uma carta da qual ele fala, descoberta anos depois, é uma surpresa terrível para ele, pois não corresponde em nada à lembrança que dela guardava: é uma carta mesquinha, que destila veneno e ódio e não a carta altiva e inteligente que ele pensara ter escrito.  Uma tentativa de descobrir lugares onde passara um fim de semana de angústia por meio do Google Maps se revela improdutiva. Os lugares parecem não ter existido. Existiram? Não?  E assim fazemos muitas perguntas e as respostas não aparecem: Verônica seria realmente como ele a descreve? Misteriosa, de atitudes dúbias? Ou uma moça normal que apenas não o amava? Por que a mãe de Verônica o prevenira contra ela? Queria seduzi-lo como mais tarde seduziu Adrian? Havia mesmo algo incestuoso na família de Verônica ou a suspeita só lhe nascera por ser um rapaz inseguro?  O filho era de Verônica com Adrian? De sua mãe com Adrian? (As nossas  respostas não foram iguais, divergimos bastante). Descobrimos então que o narrador não tem nenhum domínio dos fatos, as lacunas são muitas e que o livro foi escrito assim mesmo, propositadamente. Comparando com nossas vidas vemos que também temos as nossas lacunas, que preenchemos ou não, que as lembranças podem ser alteradas pela culpa, pelo remorso, pela tendência a nos vermos por uma ótica que nos favoreça.  O livro que para alguns parecia de início uma história leve vai se revelando dramático, denso e circular. A primeira página, relida por nós, poderia ser a página final e, segundo um de nós, mais páginas o livro tivesse mais versões apareceriam.  Muitas coisas mais foram discutidas. É impossível para esta escrevinhadora recuperar tudo o que foi dito, mas creio que talvez tenha dado uma pálida ideia do que foi a nossa discussão para os ausentes. Concordamos todos que o livro é bem escrito, há páginas bem humoradas, trechos líricos, enfim, que é muito bom.

Claro que enquanto a conversa se desenrolava tomávamos o nosso vinhozinho do Porto e comíamos salgadinhos deliciosos. Passamos depois para a mesa do café e enquanto saboreávamos as gostosuras trazidas falamos das nossas leituras. Tivemos nessa parte da reunião um companheiro não convidado, Corisco, que assustado com o barulho dos foguetes, veio para a sala. E como deu trabalho. Chegou com tudo, misturou-se, comeu salgadinhos, assustou alguns e nos fez ter saudades da Francisca. Particularmente, tive saudades por outras razões também.

Eis o que andamos lendo:

Luisinha – 1922, a semana que não terminou – Marcos Augusto Gonçalves, O sentido de um fim, Julian Barnes;

Nilma – O sentido de um fim;

Virgínia – A confraria dos tolos – John Kennedy Toole, Matadouro 5- Kurt Vonnegut, Os íntimos – Inês Pedrosa;

Ceissa – O ano da morte de Ricardo reis – José Saramago, As vinhas da ira – John Steinbeck, À leste do Éden – John Steinbeck, O homem lento – J.M. Coetzee, O código dos justos – Sam Bourne;

Tadeu – A contadora de filmes – Hernán Letelier, Bonsai – Alejandro Zambra, A confraria dos tolos;

Roberto – Guia politicamente incorreto da filosofia – Luiz Felipe Pondé, Elegia – Rainer Maria Rilke;

Josenita – Escritos e seminários de Lacan;

Andrés – Inconsciente e responsabilidade – Jorge Forbes, Ar de Dylan – Enrique Vila-Matas;

Carmen – A cor na arte – John Cage, Iniciação à estética – Ariano Suassuna;

Bete – Winesburg, Ohio – Sherwood Andeerson, Gente pobre- Dostoievski, A hora da estrela, Clarice Lispector;

Cléa – Cartas a Theo – Van Gogh, Guia politicamente incorreto da filosofia, A dança dos dragões, George Martin;

Zita – O sentido de um fim, Memórias inventadas, a terceira infância – Manoel de Barros, La borra del  café – Mario Benedetti, Billie Holliday e a biografia de uma canção Strange Fruit – David Margolick (mandou a relação por e-mail).

Os livros indicados para o mês de outubro e a votação:

A mulher foge – David Grossman – 2 votos

Adão no Éden – Carlos Fuentes – 2 votos

História da eternidade  – Jorge Luis Borges – 1 voto

Amsterdam – Ian McEwan – 4 votos

Versos satânicos – Salman  Rushdie – 2 votos.

Escolhido então Amsterdam. A reunião foi antecipada para o dia 24 de outubro. E como teremos mais tempo até a reunião de novembro, dia 28, escolhemos logo A mulher foge, para essa data.

E aqui termino este relato. Se alguém quiser acrescentar alguma coisa, não se acanhe; a contribuição nos enriquecerá.

Até a próxima reunião. Abraços

 

 

 

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